Entrevistas

Quem gosta de obstetrícia já nasce com a vocação

Legado de 35 anos na Medicina cascavelense inclui a participação em projetos como a criação do Banco de Leite Humano, a fundação da Unimed Cascavel e do Hospital Gênesis

Quando o “pé vermelho” de Jacarezinho, Marcelo Palma de Oliveira, mudou-se para Curitiba aos 15 anos para concluir o então 2º grau e iniciar o cursinho visando a área da saúde porque “não gostava de exatas”, seguiu a intuição de maneira assertiva: aos 16 iniciou Medicina na Universidade Federal do Paraná (UFPR) e, seis anos depois, em 1982, estava formado e motivado a seguir ajudando a trazer vidas ao mundo.
Foi assim que consolidou-se a vocação do jovem oriundo de uma geração que tinha outras duas opções: Engenharia ou Direito. Embora não tenha sofrido influência do pai, dentista, a carreira na saúde parece ter sido herdada. Em 1983/84, Palma fez residência no Hospital de Clínicas da UFPR e, em 1985, já estava clinicando em Cascavel, também como servidor da Secretaria de Estado da Saúde, iniciando uma trajetória que marcaria várias gerações.
Nesses quase 40 anos de Medicina, a rotina do consultório ganhou um capítulo especial, solidificado na conduta médico-paciente, pautada na empatia, fator primordial na humanização da saúde, que faz o médico acompanhar cada nova fase da vida da paciente, transmitindo confiança e credibilidade.
“Hoje sou mais médico do climatério, pois tenho pacientes que atendo há 30 anos. Como nos conhecemos quando elas e eu estávamos na casa dos 25, acompanhei várias fases de suas vidas; resolvi fazer pós-graduação em geriatria também, pois agora estamos com 60 e preciso entender a saúde da mulher além da ginecologia, compreendendo o processo de envelhecimento de uma forma global, humana e saudável. Estamos envelhecendo juntos e, isso é muito gratificante”, relata.

Uma vida pautada em valores

Construir esta história de décadas no consultório foi apenas um dos desafios vencidos pelo profissional que - aos 61 anos comemorados no dia 15 de junho - faz parte da história médica de Cascavel, cidade que ele escolheu para viver e construir não só a carreira, mas também uma bela família. Pai do agrônomo Gustavo, de 30 anos, e da médica, Mariana, de 27 anos - apaixonada por Medicina da Família - há quatro anos Dr. Marcelo precisou se tornar um “pãe”, com o falecimento da esposa. “Seguimos, tocando a vida; sempre orientei meus filhos sobre valores que precisamos manter e a importância do ’ser’ antes do ‘ter’; procuro transmitir honestidade e mostrar que é preciso lutar para conquistar, pois o jargão já diz que ‘não existe almoço grátis”.

Seja bem-vindo ao mundo!

Caso você esteja na faixa dos 35-40 anos e nasceu no Hospital São Lucas, é possível que tenha passado pela tradicional recepção do Dr. Marcelo: “Seja bem-vindo (ele diz o nome do bebê) a este mundo”, que é uma forma de emanar um: “Venha para o mundo, que estamos te esperando para você viver e vencer” e, “isso é algo que ainda hoje me emociona, mesmo depois de 40 anos fazendo partos, por isso ainda não parei, se eu parar, uma parte de mim para junto”.
Ele conta que antes do Hospital Universitário (Regional) ser implantado, o São Lucas era referência em maternidade em Cascavel. “Chegávamos a fazer de 200 a 250 partos/mês; desses eu fazia até 150, então perdi a conta de quantas crianças recepcionei”.
Foi ainda na faculdade, nas experiências de trauma e emergência, que Dr. Marcelo descobriu o rumo a seguir. “Quem gosta de obstetrícia nasce com a vocação; quando trabalhava em pronto-socorro me sentia útil, mas não era onde me sentia bem: minha alegria vinha na maternidade, que é onde a vida nasce e se acompanha nove meses uma gestação, cria-se um vínculo forte com a paciente, que confia em você; e o momento do parto traz uma emoção indescritível”.

Mais de 110 mil exames de imagem na bagagem

Como complemento na obstetrícia, Marcelo Palma especializou-se em Ultrassonografia em Ginecologia/Obstetrícia pela Febrasgo e pelo CBR (Colégio Brasileiro de Radiologia) e acumula uma experiência de cursos, congressos e mais de 110 mil exames cadastrados, o que lhe gabarita como testemunha da evolução da imagem.

Legado para a história de Cascavel

Desde que chegou a Cascavel em meados da década de 1980, a convite do também ginecologista Dr. Carlos Puppi Mori, Marcelo Palma cravou seu nome nos anais da Medicina local. Ainda em 1989 ajudou a fundar a Unimed Cascavel, cooperativa médica da qual participou por quatro gestões, sendo vice-presidente e superintendente; depois foi diretor de projetos da Federação das Unimeds do Paraná (entre 1998 e 2002). Fez pós-graduação em Auditoria Médica e cursou MBA em Administração em Saúde, contribuindo por três décadas na saúde pública estadual, sendo dez anos como médico e 20 como auditor.
No fim da década de 1990, junto com o Rotary Clube Cascavel Leste, projetou e implantou o Banco de Leite Humano do HU, que atualmente atende uma média de 250 recém-nascidos mensalmente. Em 2003 participou da fundação do Hospital Gênesis, pioneiro em tecnologia de ponta, com implantação de atendimento humanizado e layout sofisticado que direcionou a mudança de conceitos na rede hospitalar local e regional.

Transferência de conhecimentos a nova geração

O legado do Dr. Marcelo Palma continua em construção. Hoje aposentado no Estado, divide o tempo entre o consultório na Clínica Maternal e a Ultramed; a Imago, o Hospital Gênesis e os demais hospitais da cidade. Paralelamente, não abre mão da atividade docente, como professor no curso de Medicina da Unioeste.
“Julgo que posso passar para meus alunos uma experiência de 40 anos, pois tenho saúde ainda e uma vida a ser compartilhada, então posso contribuir transferindo conhecimentos; é uma bagagem que pode somar na prática dos novos profissionais da saúde, pois a conduta médica requer experiência.”