Eventos

Ceapac: cirurgia inédita no Oeste para correção de anomalia craniana proporciona nova vida para crianças

Especialistas do HUOP e de outras instituições realizaram o mutirão de cirurgias, um avanço na medicina local com alcance internacional

Cinco crianças, com três tipos de malformação craniana diferentes, tiveram a oportunidade de iniciar uma nova vida após terem sido submetidas a uma cirurgia de alta complexidade no Hospital Universitário do Oeste do Paraná (Huop). O procedimento é indicado para a correção de anomalia no crânio, chamada de cranioestenose, uma condição rara que causa pressão no cérebro e pode ocasionar déficit motor, crises convulsivas e sequelas em longo prazo. 

O mutirão de cirurgias para correção de anomalia craniana foi o primeiro dessa magnitude realizado em Cascavel e região, o que representa um grande avanço para a medicina local. A iniciativa do Centro de Atenção e Pesquisa em Anomalias Craniofaciais (Ceapac) contou com o suporte técnico de vários especialistas do HUOP e também de outras instituições. 

Medicina, tecnologia, profissionalismo e solidariedade foram fundamentais para o sucesso do mutirão. Com a programação, os pacientes tiveram um tempo de duração de cirurgia menor e ótima resposta pós-operatória, recebendo alta hospitalar precoce.

Thomas Lucca Leite Chaves foi uma das crianças que aguardava a cirurgia e passou pelo procedimento. A mãe, Isabelle Carolina Leite Chaves, conta que ficou apreensiva, mas sabia que mudaria a vida de Thomas. “Fiquei nervosa ao saber que tinha chegado o momento de fazer a cirurgia, mas ao mesmo tempo aliviada, foi para o bem dele”, revela a mãe.

A equipe interdisciplinar estava comprometida com os mesmos objetivos: trocar conhecimentos, conduzir os procedimentos com o máximo de precisão e, acima de tudo, melhorar a qualidade de vida das crianças selecionadas pelo projeto. 

 

Dra. Giselle Coelho, neurocirurgiã do Hospital Infantil Sabará e diretora científica do Instituto Educsin, em São Paulo

O Instituto Educsin é o nosso grande apoiador na realização dos projetos de planejamento pré-operatório com simuladores virtuais e simuladores físicos. Trabalhamos há cinco anos com essa iniciativa. Em São Paulo, por exemplo, já foram atendidas mais de 35 crianças com cranioestenose, pacientes do SUS, beneficiados por meio de planejamento e técnica de impressão tridimensional. 

Eu sou neurocirurgiã há dez anos, médica há quinze anos. O bebê simulador que eu desenvolvi no passado serve para treinar hidrocefalia e um tipo específico de cranioestenose, sendo que, atualmente, já faz parte de alguns cursos e publicações bem importantes internacionalmente.

Nos dois últimos anos, idealizamos o modelo híbrido, sendo os primeiros no Brasil e no mundo a utilizar este tipo de protótipo para a correção de anomalia craniana. O híbrido foi criado justamente para trazer à realidade tudo o que vamos encontrar no momento da cirurgia. O modelo tem pele, osso, cérebro, dura-máter e todas as estruturas anatômicas. 

Além disso, também é possível conferir as medidas bem detalhadas e milimétricas das osteotomias, dos cortes no osso, e tudo isso representa uma melhora não só funcional, mas também estética. Na hora do planejamento pré-operatório, ao operar esse modelo realístico, a equipe médica escolhe qual será a melhor conduta, inclusive a possibilidade de trocar a técnica caso seja necessário.

Dra. Giselle Coelho segura bebê simulador que desenvolveu para treinamento de neurocirurgiões.
Projeto foi premiado por Federação Mundial de Sociedades de Neurocirurgia.

As crianças selecionadas pelo Ceapac têm anomalias craniofaciais complexas, sendo necessário um time multidisciplinar: cirurgiões, neurocirurgiões, cirurgiões plásticos, cirurgiões bucomaxilofaciais, enfermeiros, instrumentadores, residentes entre outras especialidades.  Cada paciente tem um tipo diferente de cranioestenose, de acordo com a sutura (espaço entre os ossos que geralmente é para estar aberto nessa idade, mas quando fecha precocemente acarreta alteração do formato craniano). 

A cirurgia indicada para este caso chama-se craniossinostose, e a correção na idade adequada previne o atraso no desenvolvimento neuropsicomotor dessas crianças, atrasos na fala, cognitivos e as possíveis sequelas. Além disso, também evita as alterações estéticas. 

Recentemente, recebi um convite da Universidade de Harvard para apresentar exatamente este projeto que desenvolvemos aqui. E sabe qual foi a minha surpresa? Eles não tinham ainda algo assim por lá, apenas o modelo com impressão 3D. Conseguimos demostrar que planejamos com realidade aumentada, realidade virtual e um modelo físico, enfatizando a diferença que tudo isso faz para médico e paciente. A nossa ideia é realmente continuar expandindo e levando a nossa tecnologia brasileira para outros lugares, reduzindo essa fronteira, até mesmo de conhecimento, que existe entre os países desenvolvidos e subdesenvolvidos.  

Hoje, temos resultados muito notáveis desse tipo de planejamento, conseguindo reduzir tempo cirúrgico, complicações, tempo de internação, de UTI e de pós-operatório. Não há nenhum caso de infecção até agora. Além disso, há redução do tempo de anestesia, redução da perda sanguínea... são muitos benefícios verdadeiramente. A Educsin apoiou esse projeto desde a concepção e continua nos dando suporte para viabilizar esse tipo de cirurgia pelo SUS. 

Giselle Coelho recebeu Prêmio Jovem Neurocirurgião da World Federation for Neurosurgical Societies (WFNS) por simulador de cirurgia 

 

Dr. Maurício Yoshida, cirurgião plástico especializado na área de Cirurgia Craniofacial, vinculado à Faculdade de Medicina do ABC, a Funcraf – Fundação para o Estudo e Tratamento das Deformidades Craniofaciais e Hospital Infantil Sabará, em São Paulo 

A minha formação é Medicina, Cirurgia Geral, Cirurgia Plástica e Cirurgia Craniofacial (sendo que nesta atuo mais focado na área de deformidades congênitas). Aqui em Cascavel, temos cinco casos de craniossinostose, e a minha contribuição será na remodelação óssea da região supraorbitária, isto é, na região superior da órbita. Contamos com o suporte de uma tecnologia relativamente recente, a impressão 3D para craniossinostose (inclusive são poucos e raros serviços no Brasil que utilizam desses modelos híbridos). 

Além da impressão tridimensional do crânio, temos um trabalho de cobertura cutânea e de pele, sendo possível construir uma réplica do próprio paciente, fundamentada pelo exame da tomografia. Em seguida, não tenho só o crânio da criança, mas um protótipo representando o corpo dela como um todo. Isso é um grande avanço, quando comparado ao crânio impresso em que apenas simulávamos o corte do osso. 

Com a impressão 3D, a simulação torna-se muito mais precisa, o corpo e a cabeça já ficam posicionados do mesmo jeito que estarão na cirurgia, podemos testar as incisões, prever as dificuldades de expor o crânio, treinar habilidades em equipe, pois são as mesmas deformidades que serão encontradas durante o procedimento. Por isso, ao final, conseguimos realizar cirurgias mais rápidas, mais seguras e com resultados pós-operatórios mais previsíveis. Neste ano, completo 25 anos na área da medicina e 15 atuando na área de Cirurgia Craniofacial. É um trabalho muito gratificante. 

 

Dr. Lázaro Lima, neurocirurgião pediátrico e adulto  

O que explico para as mães dos pacientes com cranioestenose é com uma analogia: existe um problema de carroceria, mas não de motor. A diferença para um carro é que o motor (no caso, o cérebro) precisa crescer, e a carroceria (os ossos da cabeça) não podem impedir o crescimento. 

Partindo disso, conseguimos entender que, se essas crianças operarem na hora certa, terão uma vida completamente normal, mas, caso não sejam operadas ou se demorarem para operar, terão sequelas para toda a sua vida. O que intriga quem trabalha em um sistema de saúde é que essas crianças acabavam enfrentando uma fila para operar em Curitiba e, muitas vezes, já operavam tardiamente.
O que fizemos foi começar a dar um fluxo aqui em Cascavel para esses pacientes. No mutirão, tivemos a oportunidade de contar com colegas muito experientes de São Paulo, a Dra. Giselle Coelho, neurocirurgiã pediátrica, e o Dr. Maurício Yoshida, cirurgião plástico. 

Essa troca de experiências com a nossa equipe do CEAPAC representa um avanço para Cascavel e região. Esses colegas desenvolveram um sistema revolucionário de programação da cirurgia através de um modelo híbrido em que se pode visualizar a malformação, intervir, corrigir e analisar o resultado final. Assim, a cirurgia pode ser programada e realizada antes mesmo de a criança estar na sala de cirurgia e, caso necessário, vários ajustes podem ser realizados para obter a melhor descompressão para o cérebro, assim como para o formato do crânio e da face.

 

Dr. Felipe Marchioro, cirurgião plástico

A pré-simulação, no caso dos modelos que temos usado, permite que haja um planejamento melhor para a cirurgia. É uma área de intersecção entre a Cirurgia Plástica e a Neurocirurgia. Unimos essas áreas para trabalhar a parte óssea da criança com cranioestenose, anomalia já mencionada. 

No fim das contas, é o que mais nos motiva: ver o resultado, o impacto disso na rotina de crianças que poderiam sofrer muito ao longo do tempo, pela má qualidade de vida e pela triste realidade do bullying, sentindo constrangimento por terem uma anomalia craniofacial, já que é um estigma muito grande.

Essas crianças têm uma vida normal após cirurgia; é claro que depende de cada caso, algumas crianças sindrômicas podem cursar com algumas outras alterações neurológicas, mas a grande maioria delas consegue viver normalmente depois disso. 

 

 

Dr. Álvaro Garbin, cirurgião bucomaxilofacial

Os pacientes normalmente têm anomalias craniofaciais e que envolvem alterações de terço superior e terço médio da face. As cirurgias em questão visam melhorar tanto a parte funcional do crescimento como também a parte estética. 

Dentro da cirurgia bucomaxilofacial, nós fazemos intervenções e procedimentos ósseos no terço médio da face, cujos benefícios transformam a vida dos pacientes.

 

 

 

 

Mariangela Monteiro Baltazar , coordenadora geral do Ceapac

Estamos felizes, pois se trata de mais uma oportunidade de aperfeiçoamento e de contribuir com a saúde de nossas crianças. Costumo dizer que o Ceapac é uma história em construção, e iniciar esse processo aqui na região Oeste é de grande relevância social, comunitária e acadêmica. 

A nossa macrorregião não realizava, até então, esse tipo de procedimento. Os nossos pacientes enfrentavam dificuldades de deslocamento até Curitiba ou para outros grandes centros que oferecem esse tipo de tratamento cirúrgico pelo SUS. Além disso, as famílias também sofrem adversidades em termos de organização da política pública para essas anomalias. Por isso, para o Ceapac é um sonho realizado, um privilégio para o ensino da instituição. 

 

 

 

 

 

 

Modelo híbrido, com tecnologia de impressão tridimensional (3D), permite realizar simulações pré-operatórias colaborando para a segurança do paciente. Essa diferença na preparação dos profissionais antes da cirurgia melhora tanto os resultados funcionais quanto estéticos. Também pode evitar reoperações, complicações cirúrgicas graves e mortes.

 

 

 

 

 

 

Quem fez o mutirão acontecer

CEAPAC

COORDENAÇÃO  
- Profa. Dra. Mariângela Monteiro de Melo Baltazar - Coordenadora Geral 
- Profa. Dra. Natasha Magro Ernica Coordenadora da Residência Multiprofissional em Reabilitação Integral das Anomalias Craniofaciais.

EQUIPE ADMINISTRATIVA
- Sirlei Baffa Clavero 
- Flávia Bonini
- Maria Aparecida Dias 

EQUIPE CLÍNICA
- Daniela Lopes - Fonoaudióloga
- Profa. Dra. Luciana Paula Grégio - D’Arce - Bióloga Geneticista 
- Prof. Dr. Álvaro Garbin - Cirurgião bucomaxilofacial
- Profa. Dra. Fabiana Gonçalves de Azevedo Matos - Enfermagem
- Marcielle Cândido - Enfermagem 

RESIDENTES CEAPAC
- R2 Andressa Fernanda Luiz - Residente de Genética 
- R2 Maria Julia Navarro Kassim - Residente de Enfermagem. 
- R2 Celina Cabral - Fonoaudiologia

EQUIPE MÉDICA 
Neurocirurgia Pediátrica
- Dr. Lázaro de Lima

RESIDENTES NEUROCIRURGIA 
- R5 Dr. Willian Luiz Rombaldo
- R4 Dr. Gustavo Pinto Correia
- R3 Dr. Paulo Ricardo Correa Schmidt
- R2 Dra. Gabriela Cavalieri de Oliveira

MÉDICOS CONVIDADOS
- Dr. Maurício Yoshida - Cirurgião Plástico
- Dra. Giselle Coelho - Neurocirurgiã Pediátrica
- Dr. Felipe Marchioro - Cirurgião Plástico

A organização logística do mutirão contou com a colaboração direta da Reitoria da Unioeste,
Direção do Huop e toda equipe médica e de enfermagem do centro cirúrgico, UTI pediátrica e ala de Pediatria. 

- Reitor - Prof. Dr. Alexandre Webber
- Direção Geral - Rafael Muniz
- Direção administrativa - Rodrigo Barcella 
- Direção Clínica - Vilson Dalmina 
- Direção de Enfermagem - Sara Trecossi 
- Direção Pedagógica - Prof. Dr. Alex Sandro Jorge

 

Texto: Jornalista Sandra Lopes / Fotos: Andressa Fernanda Luiz e  Gladstone Simioni
Agradecimentos: Assessoria de Imprensa do HUOP, Dr. Lázaro Lima, jornalista Marilia Gasparovic, Henrique Semmer e professora Neuza Cantarelli