Prevenção

A classe médica é uma das mais afetadas pelo suicídio

Dr. Fabiano Agostinho

O suicídio, muitas vezes, é visto como saída para o alívio total das dores emocionais. As causas que envolvem o ato ainda são alvo de grande preconceito e estigma, tanto pela sociedade, quanto pela imprensa que evita abordar o tema, mesmo que em tom preventivo. Este silenciamento é preocupante, pois a falta de informação faz com que as pessoas acreditem que tal problema está diminuindo.

A identificação dos problemas psicológicos e outras doenças tornam-se ainda mais difíceis quando atingem os profissionais de saúde. A imagem de que o médico não fica doente, que ele deve atender 100% das expectativas do paciente e agir sempre com excelência, acaba gerando muita pressão interna e abalo emocional. Assim como, o imaginário de que eles sabem e podem diagnosticar qualquer doença, inclusive as próprias.

Quando comparados com o restante da população, os médicos têm menos risco de mortalidade por cânceres e doenças cardíacas, a situação está ligada ao autocuidado e prevenção. No entanto, o risco se intensifica quando o assunto é suicídio (Meleiro, 2015).
    
O suicídio é multifatorial. Entre 85% e 90% das pessoas que cometem suicídio sofrem de alguma doença psiquiátrica. De acordo com um estudo americano, a mortalidade por esta causa é 70% maior entre os médicos, quando comparados a indivíduos de outras profissões. Os estudantes (de qualquer curso) e residentes de medicina também são muito afetados. A carga emocional administrada em um período de intensas transformações, mudança de cidade, afastamento da família, alterações na rotina e pressão por um bom desempenho acadêmico, são alguns dos fatores que influenciam no adoecimento dos estudantes. No decorrer do curso e período de residência e estágios, estes desafios são acentuados, porque as cargas horárias hospitalares, por exemplo, contatos com pacientes e intensos períodos de provas fazem com que ansiedade e angústia se intensifiquem substancialmente, fazendo com que a saúde emocional seja abalada.
    
De acordo com o psiquiatra Fabiano Agostinho, essa rigorosa rotina médica, os modos de vida atuais focados na individualidade, competitividade e distrações digitais acabam refletindo no isolamento social e na solidão. Essas condições aliadas à privação de sono e exaustão muito recorrentes do dia a dia de acadêmicos de todos os cursos, inclusive dos residentes e médicos, bem como o enfrentamento das doenças e da morte, abalam exponencialmente a estrutura psicológica e contribuem para o desenvolvimento de doenças mentais. Além disso, a dificuldade em admitir a doença transforma a vida em uma luta constante. Quando não se consegue mais suportar os próprios pensamentos, sentimentos e ansiedades, torna-se impossível lidar com os problemas alheios e tratar deles.
    
O suicídio ainda é uma grande questão na saúde pública. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), pode ser evitado quando os profissionais de saúde, em todos os níveis de atenção reconhecem os sintomas e fatores de risco. Por isso, uma abordagem mais aberta, discussões sobre o tema e quebra de paradigmas são algumas das soluções no combate das doenças e prevenção do suicídio. A diminuição do ritmo frenético de trabalho, aumento do contato social, realização de atividades de lazer, reuniões com amigos e família, além da busca por um tratamento adequado também auxiliam nesta questão. “Por mais que se tenha a campanha do Setembro Amarelo, os indivíduos devem buscar conhecimento o ano todo para identificar as coisas que não são “chamadas de atenção”, que não são coisas da cabeça das pessoas e na dúvida procurar a avaliação de um especialista”, finaliza Dr. Fabiano Agostinho.

É preciso cuidar de si mesmo para então, cuidar dos outros  

 

Dr. Fabiano Agostinho
CRM-PR 32712
Psiquiatra RQE 19610
Doutor em Neurociências
Membro Titular das Sociedades Paranaense e Brasileira de Psiquiatria