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Uma batalha além da cura

Perda do olfato e paladar, em casos leves, até fibrose e embolia pulmonar ou sequelas neurológicas nos quadros graves da doença são alguns dos sintomas já conhecidos pelos médicos e relatados por pacientes que tiveram a Covid-19. Reabilitação pós-pandemia será novo desafio

Uma simples caminhada se tornou uma maratona. Ler um livro inteiro virou tarefa penosa. Subir escadas passou a exigir um esforço físico maior que o esperado. Reviver memórias mostrou-se motivo de frustração. Sobreviver à Covid-19 é uma vitória, porém, para muitas pessoas, esse é apenas o início de uma batalha cruel e que pode deixar cicatrizes irreversíveis.

Nesse cenário que conta com estudos científicos ainda rasos sobre os resquícios da doença - chamado pela comunidade médica como síndrome pós-Covid, Covid longa, Covid persistente ou Covid-19 pós-aguda - está a técnica em prótese dentária e auxiliar de saúde bucal, Eliane*, de 36 anos. Há um ano ela tinha os primeiros sintomas da doença no organismo: febre, calafrios, dores no corpo, cefaleia e fraqueza. Os sinais iniciais indicaram um possível quadro de dengue, mas a permanência da febre acendeu o alerta e logo os exames acusaram a infecção pelo novo coronavírus. “Após 48 dias senti uma dor no peito que ia e voltava, até que aumentou, dando a sensação que [o peito] iria explodir. A dor irradiou para o braço direito e amorteceu a mão. Nesse momento aceitei ir ao hospital e, após a realização de um eletrocardiograma, tive o diagnóstico de infarto”, conta. 

Após ser submetida a um cateterismo cardíaco, ela descobriu que a presença de trombos - coágulos parciais ou totais, que se formam nos vasos sanguíneos, veias ou artérias, limitando o fluxo normal do sangue - foram responsáveis pela doença. “Durante o procedimento tive uma parada cardíaca, passei três dias em observação na UTI e mais um no quarto. O último episódio de febre foi nesse período. A partir daí, sigo fazendo acompanhamento com cardiologista e usando medicações para manter o coração num ritmo que não force muito, afinal ele já sofreu um dano, e também usando anticoagulante”, revela.  

Quem também ainda sente os efeitos da doença é o policial rodoviário federal aposentado, Dirson Rubens Betiato, de 53 anos. Diagnosticado com a doença em fevereiro deste ano e sem doenças pré-existentes, ele apresentou todos os sintomas característicos da infecção e enfrentou 17 dias com o quadro mais grave. Nesse período ele teve 60% do pulmão comprometido. “Na época, um dos períodos de pico da doença na cidade, eu não consegui leito para ser hospitalizado, então fiz o tratamento em casa, com acompanhamento médico. Meu nível de saturação chegou a 76%”, lembra. A esposa de Dirson, que também testou positivo no mesmo período, desenvolveu uma condição grave da doença, mas conseguiu se recuperar mais facilmente.     

Desde então, a fadiga, uma das condições mais comuns associadas à síndrome pós-Covid-19, acompanha Dirson de forma assídua e reflete em tarefas simples da rotina. “Antes eu fazia as minhas atividades e não sentia esse cansaço. Agora qualquer coisa que eu faço, como subir uma escada um pouco rápido, já canso e demoro para recuperar o fôlego”, comenta, acrescentando que o olfato e o paladar também não se restabeleceram completamente e que convive com a constante queda de cabelo. 

A professora Rafaela Favoreto, de 50 anos, também enfrentou esse quadro de indisposição, mas com algumas variáveis, sendo a dor de cabeça persistente a principal delas. “Fui diagnosticada em setembro de 2020 com o que eu chamo de ‘pacote completo’ porque tive todos os sintomas mais comuns, além do comprometimento de 50% do pulmão. Na época ainda estava trabalhando em home office e fiquei afastada das minhas atividades por 22 dias.”

Sem histórico de comorbidades e após dez meses da infecção pelo coronavírus, ela diz que ainda não se considera completamente recuperada. “Tem algumas coisas que ficaram, como o pulmão, a indisposição e dor de cabeça persistente (qualquer coisa me dá dor de cabeça). Desde o diagnóstico positivo para a doença, a professora faz uso constante de medicação e também iniciou suplementação de vitaminas com acompanhamento de um nutrólogo. 

Alerta para os casos graves

Casos graves da doença, que exigem hospitalização e internação em UTI (Unidade de Terapia Intensiva), tendem a abalar mais o organismo no longo prazo. É a chamada “síndrome pós-UTI”. “A ventilação mecânica leva a uma inflamação geral que causa uma fraqueza muscular muito importante. O paciente que fica entubado por mais de duas semanas geralmente demora de quatro a seis meses para recuperar a massa muscular que ele perde nesse curto período de tempo por conta da inflamação causada pela própria ventilação mecânica, além do quadro que o levou a estar em uma UTI. No caso do paciente com Covid que vai para UTI, sabemos que ele fica em média 14 dias. É um internamento prolongado e que acaba complicando outras infecções bacterianas, desenvolvendo insuficiência renal e outros agravamentos. Então, certamente o paciente vai ter uma recuperação muito mais lenta e os sintomas vão se arrastar por pelo menos seis meses a um ano”, explica o médico intensivista e clínico geral, coordenador das UTIS Covid do Hospital Universitário do Oeste do Paraná (HUOP), Thiago Giancursi.

Por outro lado, os episódios considerados mais leves da doença também podem deixar marcas prolongadas. “A Covid é uma doença multissistêmica, uma inflamação que afeta todo o organismo e que pode piorar. Então, todo mundo que desenvolveu a doença está predisposto a ter os sintomas persistentes por conta da inflamação que o vírus causa”, salienta o profissional.

Motivo de preocupação

Além da fadiga, perda do olfato e paladar em casos leves, e da fibrose e embolia pulmonar em casos mais graves, a Covid-19 também pode deixar sequelas neurológicas, como esquecimentos. Essa, inclusive, também é uma das queixas de Dirson. Ele conta que percebeu essa dificuldade recentemente após identificar que estava esquecendo de situações e detalhes passados. “Às vezes eu e minha esposa estamos conversando, ela fala de algum detalhe e eu não consigo lembrar. Isso foi depois da Covid, antes eu não tinha esse esquecimento. E isso é o que mais me preocupa. Será que vou permanecer com isso?”, questiona.

O PRF aposentado ainda precisou de auxílio para contornar outro problema alimentado pela Covid-19: a ansiedade. “Tive que tomar ansiolítico porque a gente fica muito depressivo e também para me ajudar a dormir porque tinha muita dor de cabeça e preocupação”, destaca. 

Acerca disso, o médico intensivista afirma que os distúrbios neuropsicológicos são os que mais chamam atenção após o período de infecção pelo novo coronavírus. “Temos uma alta porcentagem de pacientes com ansiedade, depressão e distúrbios do sono. O idoso que desenvolve a Covid, por exemplo, está mais predisposto a essas alterações neuropsicológicas, e isso já vem somado ao fato do isolamento por conta da pandemia”, evidencia. 

Mais um desafio

Thiago chama atenção para o fato de a reabilitação no período pós-pandemia ser o próximo desafio, especialmente para o sistema de saúde. “A gente precisa de uma equipe multidisciplinar, focar o paciente como um todo, desde a parte médica, da recuperação com fisioterapeuta, com psicólogo, assistente social, todos trabalhando num paciente especial porque a doença não acaba quando ele sai do hospital. É isso que a gente precisa lembrar. Então, o próximo desafio será conviver com as sequelas da Covid, vamos precisar nos especializar e trabalhar ainda mais em equipe para reabilitar os pacientes”, finaliza.

*O nome completo foi suprimido a pedido da personagem. 

Dr. Thiago Simões Giancursi
CRM-PR 24683
Clínica Médica
RQE 16954
Medicina Intensiva
RQE 16953