Entrevistas

Ansiedade em tempos de COVID-19

Dr. Lucio Araripe de Abreu e Lima

A Revista Saúde News, novamente teve a oportunidade de entrevistar o médico Dr. Lucio Araripe de Abreu e Lima, psiquiatra, que nos recebeu em sua residência, num momento de lazer, quando se dedicava a pintar um quadro em seu atelier. Num ambiente descontraído, cheio de telas nas paredes, conversamos sobre ansiedade e a pandemia causada pela COVID -19.

Saúde News (SN) - Qual é a percepção de um médico psiquiatra diante da pandemia provocada pela COVID-19 ?
Dr. Lucio -
Antes de qualquer coisa, essa pandemia pode mostrar ao mundo o sentimento de entrega, desapego à própria vida e atitudes heroicas dos médicos, enfermeiros, serventes, motoristas de ambulância, maqueiros e todos os profissionais de saúde que, diante de um vírus desconhecido, ainda estão, numa grande batalha, usando as precárias armas de que dispõem, lutando contra preconceitos e incompreensão de muitos na tentativa de salvar a vida de seus pacientes. Temos que prestar homenagem ao nosso primeiro grande herói, o oftalmologista chinês, Dr. Li Wenliang que, em dezembro de 2019 alertou o mundo para a nova ameaça. Como todo grande herói, foi incompreendido em seu próprio país. Acometido pelo vírus no hospital em Wuhan, faleceu em 7 de janeiro. Em diversos países, médicos e pessoal de saúde nos hospitais, honraram o juramento de Hipócrates sacrificando suas vidas, seus relacionamentos familiares, trabalhando em condições precárias contra um inimigo invisível e mortal.

SN -  Na área de psiquiatria, qual o impacto da COVID-19 ?
Dr. Lucio -
Ainda não temos pesquisas definitivas sobre essa questão, estamos praticamente no olho do furacão, entretanto, em nosso consultório há um aumento grande de casos de ansiedade. Muita gente precisando de tratamento para diminuir os incômodos causados pela ansiedade. Mesmo com o sucesso da atual campanha de vacinação, a COVID-19 desperta nosso medo ancestral da morte. Essa doença tem características que favorecem esse sentimento; o vírus é invisível, a pessoa não sabe onde é contaminada, ataca pobres e ricos, mansos e poderosos, tem um grau de letalidade incerto. Depois, as mídias vêm, há muito tempo, informando a toda hora número de mortes em todos os países do mundo. É um martelar constante, diário, de um noticiário trágico. As pessoas ficam impotentes diante dessa ameaça que está em toda parte. Diversas medidas de contenção da pandemia foram determinadas em vários países, estados, cidades. Em alguns países foi mais fácil o isolamento, porém, em todos os lugares, houve grande sofrimento com a quebra do modo de vida.

SN - Poderia apontar um grupo que sofreu ou está sofrendo mais com essa pandemia?
Dr. Lucio -
As crianças! As crianças de mais ou menos idade de dez anos, por exemplo, não são capazes de entender plenamente as razões de seu isolamento social. Todo mundo de encantamento, os primeiros aprendizados, as amizades, os coleguinhas da escola, as brincadeiras ao ar livre foram sequestradas. Em muitos países, nas grandes cidades, ficar trancada num apartamento, vendo a angústia dos pais, vendo televisão ou manipulando um smartfone, desencadeou uma série de desarranjos mentais que causaram nelas ideias de morte, suicídio, desesperança, embotamento afetivo, transtornos do sono, agressividade. José Saramago, grande escritor português, em memorável entrevista diz: “...tive um pai biológico e uma mãe biológica mas, o pai espiritual do homem que sou é a criança que eu fui”. Essas crianças sem escola, sem amigos, sem brincadeiras, sem descobertas inocentes, que homens e mulheres serão amanhã?

SN - Como podemos evitar tanto sofrimento mental?
Dr. Lucio -
Não há uma recomendação universal. No caso dos médicos, o desaparecimento de colegas de trabalho tem uma carga afetiva muito grande. Ninguém é imune a uma situação limite. Estamos todos estressados, cansados, mas, fazendo de algum modo um esforço muito grande para voltar à vida normal. Fica difícil substituir a conversa com os amigos, os abraços, o aperto de mãos, a conversa descontraída num restaurante, a visita aos familiares. Penso que, particularmente na nossa profissão, todo médico tem uma visão de mundo diferente. Nós lidamos com a vida e a morte, particularmente com a nossa morte. Precisamos, assim, dar mais valor a expressões e sentimentos que estão dentro de nós. Não podemos apenas consumir o que a televisão nos oferece. Ali, o pacote já vem pronto. Temos que buscar expressar de alguma forma nossa vida interior. Música, literatura, artes em geral são um território, às vezes negligenciado, mas, todos nós somos portadores desses mundos e precisamos explorá-los. 

SN -  Na sua visão, como sairemos dessa pandemia?
Dr. Lucio -
Todos os países do mundo foram afetados por esse vírus. As respostas a pandemia foram variadas e assistimos países do primeiro mundo sofrendo grandes devastações em suas populações. A medicina, em menos de um ano, nos apresentou o caminho com a produção de vacinas. Vamos nos soerguer, mas não esqueçamos as lições que fomos forçados a aprender. Ainda há um futuro incerto em nossas mentes. Penso que vamos, quando a pandemia for domada, olhar a vida de outra maneira. Perguntaram a um pensador a mais de dois mil anos: Mestre, o que uma pessoa precisa para ser feliz? Ele respondeu: “... Três coisas; um corpo bom, um pouco de sorte e uma cabeça fresca”. Essa é, sintetizando, a grande medicação para uma vida saudável. 

 

Dr. Lucio Araripe de Abreu e Lima
Psiquiatra
CRM-PR 13.245 / RQE 13.018