Prevenção

Um novo olhar sobre uma velha conhecida

Dra. Rubia Bethania Biela Boaretto

Costumo explicar aos meus pacientes que, quando os rins entram em falência, eles possuem três opções para se manterem vivos: a hemodiálise, o transplante renal e a diálise peritoneal. A primeira é velha conhecida dos pacientes e terapia consagrada entre médicos nefrologistas. A segunda, requer tempo e preparo adequado. A última, por sua vez, é a mais esquecida, marginalizada, vivendo à sombra das demais. E é sobre ela que quero falar aqui. Segundo dados do último Censo Brasileiro de Diálise, até julho de 2018, o número total estimado de pacientes em diálise foi de 133.464. A taxa anual de mortalidade bruta foi de 19,5%. Desses pacientes, 92,3% estavam em hemodiálise e somente 7,7% em diálise peritoneal, com 29.545 (22,1%) em fila de espera para o transplante. Mas por que isso acontece? Por que menos de 10% dos pacientes estão em diálise peritoneal? Quem são os culpados? Respondo assumindo a culpa, afinal, apresentar as opções de terapias de substituição renal é a nossa função. Explorá-las da melhor maneira, de acordo com os perfis do paciente, é nossa obrigação como bons médicos. Oferecer o que temos de disponível e capacitá-los é nossa tarefa. Nossa especialidade médica nos permitiu ser assim. Tudo aquilo que não conhecemos nos amedronta, causa espanto, incertezas; acredito que esse seja o ponto chave. A diálise peritoneal é uma terapia realizada em casa, pelo próprio indivíduo ou cuidador e qualquer um é capaz de aprender. Garante mais qualidade de vida, permite flexibilidade no trabalho, nos estudos e, especialmente, em viagens. Ou seja: preserva a funcionalidade do indivíduo, sem contar aqui as outras inúmeras vantagens médicas. Diante do exponencial crescimento dos pacientes com doenças renais, cada vez mais os sistemas de saúde têm se preocupado em como atender esses indivíduos. Em publicação recente, os Estados Unidos assinaram um tratado (Advancing American Kidney Health) para garantir que, até 2025, 80% de toda a população com doença renal crônica terminal esteja realizando terapia em domicílio e, entenda-se por isso, diálise peritoneal na grande maioria. Essa é a tendência. Neste ano de transformações tão intensas, quero voltar nosso olhar à velha e boa terapia tão esquecida, salientar o que nunca se ouviu tanto: FIQUE EM CASA. E que isso só foi possível para aqueles pacientes com doença renal que faziam diálise peritoneal. 

Dra. Rubia Bethania Biela Boaretto
CRM-PR 29271 / RQE 24083
Médica nefrologista e especialista em transplante renal

Referências bibliográficas:
1. Censo Brasileiro de Diálise: análise de dados da década 2009-2018. Brazilian Dialysis Census: analysis of data from the 2009-2018 decade. Braz. J. Nephrol. (J. Bras. Nefrol.) 2020;42(2):191-200.
2. The Role of Incremental Peritoneal Dialysis in the Era of the Advancing American Kidney Health Initiative Yuvaram N.V. Reddy 1,2,3 and Mallika L. Mendu1,2 CJASN 15: 1835–1837, 2020.