Prevenção

Cuidados do coração em tempos de pandemia

Clínica Cardiológica Dr. Bastos

Em 11 de março de 2020, a Organização Mundial da Saúde (OMS) caracterizou a COVID-19 como uma Pandemia (1). O termo “pandemia” se refere à distribuição geográfica de uma doença e não à sua gravidade. A designação reconhece que existem surtos de COVID-19 em vários países e regiões do mundo. A COVID-19 é uma doença causada pelo coronavírus, denominado SARS-CoV-2, que apresenta um quadro clínico variando de infecções assintomáticas a quadros graves. De acordo com a Organização Mundial de Saúde, a maioria (cerca de 80%) dos pacientes com COVID-19 podem ser assintomáticos ou oligossintomáticos (poucos sintomas), e aproximadamente 20% dos casos detectados requer atendimento hospitalar por apresentarem dificuldade respiratória, dos quais aproximadamente 5% podem necessitar de suporte ventilatório (intubação endotraqueal). De 27 de março até 02 de novembro o Ministério da Saúde confirmou 5.554.206 casos de infectados pelo Coronavírus no Brasil, com 160.253 óbitos, havendo predomínio dos casos na Região Sudeste (2). Estes números são impressionantes levando-se em consideração que os pacientes com fatores de risco e/ou doenças cardiovasculares são mais propensos a desenvolver formas graves e complicações relacionadas à COVID-19. As complicações cardiovasculares pioram a resposta do organismo ao vírus, levando a choque, falência de múltiplos órgãos e morte. Uma pesquisa realizada em abril de 2020 pela Global Heart Hub (3), organização parceira do Instituto Lado a Lado pela Vida e primeira organização global, sem fins lucrativos, que reúne pessoas afetadas por doenças cardiovasculares, mostrou que os três maiores impactos da pandemia nos cardiopatas foram:

• Medo e ansiedade diante da vulnerabilidade de seus problemas de saúde;
• Preocupações e receios diante dos compromissos e procedimentos cancelados ou adiados;
• Aumento da ansiedade devido ao isolamento e solidão, como resultado das recomendações de "ficar em casa" ou isolamento social.

De acordo com a pesquisa muitos pacientes evitaram o hospital com medo de serem infectados. Isso gerou um apelo urgente da presidente da Sociedade Europeia de Cardiologia (European Society of Cardiology – ESC), a professora Barbara Casadei, ao enfatizar que "as instruções para ficar em casa e deixar de ir ao hospital não se aplicam a quem tem sintomas de ataque cardíaco". A apresentação da COVID-19 é leve a moderada em 80% dos casos tendo como sintomas mais comuns a febre, tosse geralmente seca, cansaço, alteração do olfato e do paladar (4). Em 20% dos casos ocorre a forma mais grave com quadro comparável ao que no Brasil se define como Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG). Esta é definida como uma síndrome gripal associada à dispneia (falta de ar), com intensa falta de ar (taquidispneia), queda da saturação de oxigênio, sat O2 < menor que 95% em ar ambiente, coloração azulada dos lábios ou rosto (cianose). As comorbidades mais frequentes nos pacientes que evoluíram a óbito foram hipertensão arterial, diabetes mellitus, doença cardiovascular e idade acima de 70 anos (5). Também fazem parte de um grupo de maior risco quem realizou angioplastias, cirurgias cardíacas, colocação de próteses valvares (biológicas ou metálicas), de marca-passo ou desfibrilador implantado, assim como aqueles com algumas formas de cardiopatias congênitas (6). A análise de 44.672 casos confirmados de COVID-19 em Wuhan evidenciou uma taxa de letalidade geral de 2,3%. Porém, a letalidade foi maior nos portadores de: Doenças Cardiovasculares DCV (10,5%), diabetes (7,3%) e hipertensão arterial (6%) (7). Também foram descritas complicações cardiovasculares (Fig. 1) decorrentes da COVID-19, como injúria miocárdica (20% dos casos), arritmias (16%), miocardite (10%), além de insuficiência cardíaca (IC) e choque (até 5% dos casos) (8,9).

As lesões que acometem o coração podem ocorrer:
1. diretamente no músculo, provocando miocardite, arritmias e insuficiência cardíaca;
2. Nos vasos sanguíneos promovendo coagulação intravascular nos vasos maiores (seguida de infarto agudo do miocárdio) e menores (vasculite difusa de microcirculação);
3. processo inflamatório difuso promovendo uma pancardite.

Portanto, a lesão cardíaca parece ser uma característica proeminente da doença e todas as medidas abaixo devem ser tomadas para acompanhamento rotineiro dos pacientes destes grupos e como realizar atividades físicas:

1. Acompanhamento rotineiro dos pacientes dos grupos de riscos:
• Os pacientes portadores de Doenças Cardiovasculares, diabetes e hipertensão arterial devem manter suas consultas rotineiras previamente agendadas, uma vez que os hospitais, clínicas e consultórios têm seguido recomendações das sociedades médicas nacionais e internacionais no sentido de protegê-los ao máximo do risco de infecção (10,11).

2. Atividade física durante a pandemia:
• É consenso que a prática do exercício físico regular deve continuar, mesmo no isolamento em casa, sendo essa uma posição clara entre cardiologistas, médicos do exercício e demais especialistas. Vários estudos (13-17) demonstram que a atividade física tem associação inversa com aumento da pressão arterial, diabetes, alterações do colesterol e triglicerídeos, risco de doença das artérias coronárias e outros eventos cardiovasculares (doenças cerebrais e periféricas).
• No caso da atividade física em casa sugerem-se exercícios de fortalecimento muscular (agachamentos, flexões, abdominais), alongamentos, exercícios de equilíbrio e subida/descida de escadas, de preferência com auxílio de procedimentos tecnológicos, tais como vídeos com séries de exercícios, aplicativos e orientação profissional on-line.
• Recomenda-se que a duração de cada sessão de exercícios seja de aproximadamente 30 a 60 minutos por dia.

Dr. Luiz de Castro Bastos
CRM-PR 12601
- Cardiologista RQE 4037
- Cardiologista Intervencionista RQE 457
- Título de Especialista em Cardiologia pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC)
- Título de Especialista em Hemodinâmica pela Sociedade Brasileira de Hemodinâmica e Cardiologia Intervencionista (SBHCI)
- Mestre em Medicina Interna pela Universidade Federal do Paraná (UFPR)
- Hemodinamicista Responsável Técnico pelo Serviço de Hemodinâmica do Hospital Policlínica Cascavel

Dra. Elisangela Canterle Sedlacek
CRM-PR 41774
- Cardiologista RQE 24663
- Ecocardiografista RQE 24695
- Título de Especialista em Cardiologia pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC)
- Graduação na Universidade Federal do Amazonas (UFAM)
- Residência em Clínica Médica (UFAM)
- Residência em Cardiologia (UFAM)
- Residência em Ecocardiografia (UFAM)

Dr. Rafael Barradas Correia Castro Bastos
CRM-PR 36930
- Clínica Médica RQE 17334
- Título de Residência em Clínica Médica pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS-RS)
- Encontra-se atualmente cursando Residência em Cardiologia (R2) no Instituto de Cardiologia de Santa Catarina
- Sócio da Clínica Cardiológica Dr. Bastos

Referências:
1. https://news.un.org/pt/events/coronavirus
2. https://coronavirus.saude.gov.br/sobre-a-doenca.
3. https://globalhearthub.org/pt/global-heart-hub-2-3.
4. Strabelli e Uip COVID-19 e o Coração Arq Bras Cardiol. 2020; 114(4):598-600.
5. Centers for Disease Control and Prevention (CDC). The Novel Coronavirus Pneumonia Emergency Response Epidemiology Team. The epidemiological characteristics of an outbreak of 2019 novel coronavirus diseases (COVID-19) in China. Zhonghua Liu Xing Bing Xue Za Zhi. 2020;41(2):145- 51. China, 202. China CDC Weekly.2020,2(8):113-122.
6. Zheng YY, Ma YT, Zhang JY, Xie X. COVID-19 and the cardiovascular system. Nat Rev Cardiol. 2020 Mar 5,17:259-60.
7. Wang D, Hu B, Hu C, Zhu F, Liu X, Zhang J, et al. Clinical characteristics of 138 hospitalized patients with 2019 novel coronavirus-infected pneumonia in Wuhan, China. JAMA. 2020 Feb 7. [Epub ahead of print].
8. Guo T, Fan Y, Chen M, Wu X, Zhang L, He T, et al. Cardiovascular implications of fatal outcomes of patients with coronavirus disease 2019 (COVID-19). JAMA Cardiol. 2020 Mar 27. [Epub ahead of print].
9. Shi S, Qin M, Shen B, Cai Y, Liu T, Yang F, et al. Association of cardiac injury with mortality in hospitalized patients with COVID-19 in Wuhan, China. JAMA Cardiol. 2020 Mar 25. [Epub ahead of print].
10. Guo T, Fan Y, Chen M, Wu X, Zhang L, He T, et al. Cardiovascular implications of fatal outcomes of patients with coronavirus disease 2019 (COVID-19). JAMA Cardiol. 2020 Mar 27. [Epub ahead of print].
11. Brasil. Ministério da Saúde. CONASEMS. Fluxo de manejo clínico na atenção primária à saúde em transmissão comunitária. [citado em 30 de abril, 2020] Disponível em: https://wwwconasemsorgbr/wp-content/
12. Fonte: Figura adaptada de Atri D, Siddidi HK, Lang J, et al. COVID-19 for the Cardiologist: A Current Review of the Virology, Clinical Epidemiology, Cardiac and Other Clinical Manifestations and Potential Therapeutic Strategies. JACC Basic Transl Sci. 2020 Apr 10. doi: 10.1016/j.jacbts.2020.04.002.
13. Lin X, Alvim SM, Simoes EJ, Bensenor I, Barreto S, Schimidt M, et al. Leisure time physical activity and cardio-metabolic health: results from the Brazilian Longitudinal Study of Adult Health (ELSA-Brasil). J Am Heart Assoc. 2016; 5(6):003337.
14. Krinski K, Elsagedy H, Colombo H, Buzzachara C, Soares I, CamposW, et al. Efeitos do exercício físico no sistema imunológico. Rev Bras Med. Jul 2010;67(7).
15. Tremblay MS, Aubert S, Barnes JD, Saunders T, Carson V, LatimerCheung AE, et al. Sedentary Behavior Research Network (SBRN)— terminology consensus project process and outcome. Int J Behav Nutr Phys. 2017;14(1):75.
16. Chen P, Mao L, Nassis GP, Harmer P, Ainsworth BE, Li F. Wuhan coronavirus (2019-nCoV): The need to maintain regular physical activity while taking precautions. J Sport Health Sci. 2020;9(2):103–4.
17. Pitanga FJG, Matos SMA, Almeida MDC, Barreto SM, Aquino EML. Leisure-Time Physical Activity, but not Commuting Physical Activity, is Associated with Cardiovascular Risk among ELSA-Brasil Participants. Arq Bras Cardiol. 2018;110(1):36-43.