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20/05/2020
Fé simples assim

Este livro pode ser lido como uma inspiradora história de resignação, perseverança, resistência e superação. Mas é mais do que isso. É uma história de amor intenso pela vida, revelada, primeiramente, pela aceitação de sacrifícios, privações e limitações, sem qualquer demonstração de revolta; e, depois, pelo inconformismo com uma situação que parecia não ter saída e na batalha incessante para conquistar um modo menos doloroso de conviver com uma doença crônica.

Mesmo nos momentos mais críticos dessa difícil trajetória, Marinês, fortalecida pelo carinho e pelo apoio da família, dos amigos e de inúmeros admiradores anônimos, nunca se deixou abater e sempre acreditou e confiou que sairia vitoriosa. Quando ela me “intimou” para escrever este prefácio, a primeira coisa que fiz foi reler os e-mails que ela me enviava diariamente registrando o cotidiano do seu internamento hospitalar, que durou quase dois meses.

Fora uma sugestão minha que ela escrevesse uma espécie de diário para não perder a lembrança dos principais fatos que marcaram aquele período. Tinha até pensado em elaborar este texto fazendo um apanhado de alguns trechos das mensagens, mas havia tanta coisa interessante que ficou impossível escolher. Acho que ali tem material para ela escrever mais um livro.

Porém, pincei duas passagens que dão a exata medida do estado de espírito com que ela encarava tudo aquilo: “Acordei bem melhor, confiante e em paz, um pouco cansada pela pressão baixa. A moça da hemodiálise veio fazer a punção, tomei café e logo começou a hemodiálise. Depois que terminou, senti um pouco de formigamento na boca, pois a pressão caiu para 8/4. Quando deito fico legal, mas sentada quase desmaio. A Dra. Irina disse que com o tempo o organismo se acostuma e a pressão se estabiliza. Tem que melhorar para não interromper o tratamento. Nem vou pensar nisso”.

“Acordei às 5 horas, com a moça do laboratório entrando para colher sangue da minha companheira de quarto. Às 6 horas, a enfermeira veio aferir meus dados vitais. Estou super bem hoje, já tomei banho, me maquiei, passei meu batom vermelho e perfume.”

Ou seja, lá estava ela como todos a conhecem: vaidosa, ciosa de sua beleza, cuidando da aparência, sempre com a autoestima elevada. O ser humano carrega dentro de si o desejo ardente pela existência. É a sede de viver que explica nossos instintos primários de defesa contra os perigos que nos rondam cotidianamente. Essa fagulha natural e poderosa revelou-se nela de forma ainda mais incandescente.

Foi com essa chama acesa em sua alma que Marinês lutou e suplantou pacientemente cada um dos enormes obstáculos com que se deparou, e que a fez jus do adjetivo de “guerreira”, como muitos a ela se referem. E, apesar das duras restrições impostas pela enfermidade, ela não deixou de desfrutar as boas coisas da vida dentro da normalidade possível. Fosse qual fosse o desafio do dia, Marinês jamais deixou que os problemas anuviassem a alegria, o prazer e a paixão contagiantes que marcam o seu jeito de viver.

O modo como ela enfrentou o seu drama (sem fazer drama) é um exemplo de coragem, resiliência e esperança. Além dos laços de amor incondicional e infinito que nos unem, tenho por ela uma gigantesca admiração. Quando alguém me faz aquela pergunta convencional que ouvimos todos os dias, “E aí, Caio, tudo bem?”, não penso duas vezes para responder “Tudo ótimo!”, mesmo que o mundo esteja desabando ao meu redor.

Diante do que a Marinês enfrentou sem um lamento, não tenho mais o direito de reclamar de nada. Com ela aprendi, e espero que você aprenda também, a não se desesperar, jamais desistir, sempre acreditar que as coisas vão dar certo, a sorver a caminhada sem sofreguidão, saboreando cada segundo, como se degusta cada gole de um bom vinho. Como diz a citação de Fernando Sabino, “o otimista erra tanto quanto o pessimista, mas não sofre por antecipação”. Em resumo, nunca perca a fé.

Texto: Caio Gottlieb, jornalista e publicitário
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