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15/09/2018
Eu não vejo tudo

(um breve olhar sobre a saúde mental)

Antes de tudo, querido leitor, preciso dizer: eu não vejo tudo. Minha lente não é a mais limpa, meus olhos não são telescópicos, não deposito sobre o que vejo o peso da verdade incontestável, ou melhor, de certa forma deposito se acredito que ela, a verdade, é sempre dual, assim como nós - quem nunca amou e odiou alguém ao mesmo tempo, quem nunca quis e não quis algo com a mesma força? Pois bem, meu olhar é assim, cheio de possibilidades.
Nos últimos anos (e não há tanto tempo assim!) os problemas relativos ao adoecimento mental têm ganhado espaço na mídia, nas escolas, nas casas, no trabalho, em quase todos os lugares. As taxas de suicídio crescem no mundo e apontam para quase um milhão de mortes por ano, a depressão chega cada vez mais cedo às crianças, as automutilações têm se tornado quase rotina em alguns ambientes escolares, e o que falar de nós mesmos? Mas então, quer dizer que estamos todos doentes? A resposta vem quase imperativa, e talvez nasça já polêmica: não, suspeito que não estejamos todos doentes! Antes de prosseguir, devo advertir: sim, a doença mental sempre existiu, existe e continuará existindo, definitivamente. Mas, se não estamos todos doentes, o que determina o crescente sofrimento, os terríveis desfechos? A vulnerabilidade, suspeito.
Poucos sistemas são capazes de mudar tão rapidamente como a sociedade, basta uma alteração significativa em algum ponto chave e tudo precisa ser reorganizado, repensado, ressignificado em poucos anos. E como os parâmetros de comunicação, de relação com a tecnologia, de contato interpessoal mudaram nos últimos tempos, não é mesmo? Isso introduz minha suspeita de que a vulnerabilidade tenha boa parte da sua origem na mudança de paradigmas sociais e não genéticos ou fisiológicos (esses dificilmente passariam por sensíveis transformações em intervalos de tempo inferiores há séculos). Não há dúvidas de que qualquer pessoa em sofrimento psíquico deva ter assistência, os tratamentos são importantes, as abordagens terapêuticas eficazes e necessárias, mas não só. Estamos diante de um corpo social fragilizado e vulnerável, e precisamos chegar a ele. Que padrões sociais estão sendo tão fortemente repetidos e determinando o sofrimento de tantos sujeitos de idades, sexos, classes sociais, interesses diferentes? Precisamos pensar. Outra pergunta, sobretudo a respeito das nossas crianças: o que as tem levado a buscar formas tão concretas (como são as automutilações) para expressar a dor, o que as tem impedido de desenvolver livremente a sua subjetividade e, com ela, a capacidade de simbolizar de outras maneiras seus pesares? Tenho minhas suspeitas.
Acredito que a melhor forma de agirmos sobre essas vulnerabilidades seja fazendo um caminho de volta - de maneira reflexiva, à volta para si, para a sociedade que habitamos e para quem somos enquanto humanos em um mundo. Duvido que a solução para esses problemas esteja na terapia gênica, na ultra microtecnologia. A melhor estratégia de saúde, educação, cultura, lazer será aquela que possa articular formas de devolver ao indivíduo a chance de se ver pelo seu semelhante e de se apaziguar com sua própria natureza. Muito pode ser feito, eu acredito.
E você, o que você vê?


Dr. Eduardo Giacomini
Médico Psiquiatra
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