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15/03/2018
Pacientes com Mieloma Múltiplo ganham nova opção de tratamento

Por: Christine Jerez Telles Battistini, fundadora da IMF Latin America
(fundação sem fins lucrativos), filha de uma portadora de mieloma múltiplo que travou durante anos a dura batalha contra a doença.


Procurar e ter acesso ao tratamento de câncer no Brasil pode se tornar uma missão desgastante. Às vezes, pacientes e familiares só conseguem obter medicamentos ao importá-los com seus próprios recursos. Em outras situações, imperam os processos judiciais, meios legais encontrados para garantir o acesso aos próprios direitos.
A exemplo do Mieloma Múltiplo (MM), a luta do paciente para receber os mais modernos tratamentos é árdua e antiga¹. A doença não é só subestimada como subtratada no país. Para começar, não existem números oficiais de casos deste tipo de câncer. Estima-se, por enquanto, de cinco a sete casos a cada 100 mil habitantes. Mas há outro agravante na história: apesar da maioria dos casos de MM ocorrer a partir da terceira idade, a patologia vem sendo diagnosticada em pacientes cada vez mais jovens, antes mesmo dos 40 anos.
Enquanto nos Estados Unidos 35% dos pacientes são diagnosticados por meio de exames de rotina – antes mesmo de a doença apresentar sintomas, no Brasil, 85% dos casos de mieloma múltiplo costuma ser identificado em estágio três, quando as manifestações são bem explícitas, como as fortes dores lombares e torácicas². Ou seja, é um momento em que a qualidade de vida já foi bem comprometida. Entre os sintomas da enfermidade que acomete a medula óssea estão: dores ósseas, aumento da possibilidade de fraturas, danos aos nervos, infecções e danos renais.
Eu defendo e acredito que a difusão de informações da patologia deve ser intensificada e constante. Além de alertar os pacientes, esse conteúdo precisa estar acessível aos médicos e demais profissionais da saúde. Contribuímos ativamente para isso com o nosso trabalho na International Myeloma Foundation Latin América, que não só propaga dados sobre a doença, como oferece apoio aos pacientes e seus familiares.
Em 2004, quando entrei nessa luta após a morte da minha mãe, diagnosticada com o mieloma múltiplo, o cenário era ainda mais complicado. Gradativamente a situação foi mudando. Para identificar o MM, um dos principais testes é a eletroforese de proteínas, exame de sangue que mede a quantidade total de imunoglobulina, alterada em pessoas com o tumor. E a boa notícia: é possível fazê-lo no Sistema Único de Saúde (SUS).
Porém, um dos impasses consiste nas dificuldades de acesso ao tratamento. A não disponibilidade de algumas medicações sempre restringiu as opções terapêuticas no Brasil, um atraso de quase uma década em relação a outros países.
Felizmente, começamos o ano com uma boa novidade. A droga lenalidomida, já presente em 70 países, finalmente foi aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Com isso, esperamos que o remédio passe a ser comercializado ainda neste primeiro semestre, após mais de oito anos de muita batalha.
Usada recorrentemente nos Estados Unidos e na Europa, a substância representa um avanço na classe de medicamentos imunomoduladores, justamente por ser mais potente e apresentar menos efeitos colaterais. A lenalidomida é um recurso importante em casos de recidiva (retorno) da doença. Sua disponibilidade no Brasil representará um marco na história. O paciente terá uma nova opção de tratamento e mais chances de decidir por melhor qualidade de vida após o diagnóstico. Sem contar que o medicamento aumenta as taxas de resposta ao tratamento e desacelera a progressão do mieloma múltiplo.
Tenho certeza de que vivemos um momento mais do que propício para o paciente decidir o seu tratamento juntamente com o médico. Com mais recursos, fica mais fácil analisar e decidir qual a forma de administração mais indicada do medicamento, quais as melhores combinações, entre outros. Além de levar em conta, de forma mais particular, os efeitos colaterais dessas drogas. Devemos comemorar, mas continuar batalhando.

Referências: 1. Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular. Disponível em: http://www.abhh.org.br/noticia/avancos-no-tratamento-do-mieloma-multiplo-continuam/. Acesso em dezembro de 2017.
2. Internacional Myeloma Foundation Latin América. Disponível em: http://www.myeloma.org.br/. Acesso em dezembro de 2017.