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Entrevistas

Doutor Alex Koch: a ortopedia como escolha de vida para abrandar a dor e devolver o bem-estar aos pacientes


Paranaense de Cafelândia - o filho dos professores Guilherme e Leonida, que residem em Corbélia - descobriu ainda na adolescência que queria trabalhar para aliviar a dor das pessoas. E correu atrás do sonho. Doutor Alex Koch fez técnico agrícola pela Universidade Federal de Santa Catarina, cursou medicina na Universidade Federal de Santa Maria, RS, residência em ortopedia pelo Hospital Beneficência Portuguesa, SP e se especializou em cirurgia da coluna pela Universidade Federal do Paraná. O médico já atuou de sul a norte do País. Logo após a sua formação, trabalhou no Estado do Tocantins, retornando em 2006 para Corbélia, atuando em Cascavel e região; no ano de 2017 fixou residência na capital do Oeste com a família. É casado há 12 anos com Silmara Becker Koch e pai de Julia e Axel, com 7 e 6 anos. Membro titular da Sociedade Brasileira de Ortopedia, com ampla experiência e domínio na área da ortopedia e trauma ortopédico, Dr. Alex é movido pelo sonho de aliviar o sofrimento, a dor e devolver o bem-estar aos pacientes. O ortopedista recebeu a equipe da Saúde News em seu consultório para uma entrevista, na qual relata os desafios e avanços no atendimento do trauma e da ortopedia, descreve a experiência acumulada na vivência da dinâmica do trauma ortopédico na rede pública e dá dicas para quem deseja cursar medicina ou seguir na especialidade de ortopedia.
SAÚDE NEWS (SN): Por que escolheu a ortopedia como área de atuação?
Doutor Alex (DA): Gosto de cirurgia desde a minha adolescência, pois no Colégio Agrícola éramos auxiliares em cirurgias veterinárias, mas, infelizmente, parece que vacas e cavalos só ficam doentes em fim de semana e feriados (risos). Como o fluxo cirúrgico na medicina veterinária é baixo, optei por cursar medicina e me dedicar à cirurgia em humanos. Na faculdade, desde o início, acompanho centro cirúrgico e tive contato com as diversas áreas da cirurgia. A ortopedia me encantou, uma vez que cada caso representava um novo desafio, pois cada fratura, embora tivesse a mesma abordagem, necessitava de uma dinâmica diferente da equipe. E isso que me move: o desafio que cada paciente traz e poder aliviar o seu sofrimento, além da meta da reconstrução da forma mais anatômica possível nas cirurgias. Após uma década e meio dedicada à cirurgia ortopédica, até hoje inicio cada cirurgia com a mesma vontade de 15 anos atrás.



SN: O que significa ser ortopedista?
DA: Significa aliviar a dor e o sofrimento das pessoas, melhorando a qualidade de vida delas.

SN: Quais os principais desafios enfrentados na ortopedia?
DA: Hoje, o grande desafio é diminuir a agressividade e a morbidade nas cirurgias ortopédicas, uma vez que são, em grande parte, procedimentos mais agressivos que em outras áreas. A tendência natural da evolução de técnicas cada vez menos invasivas, como fixações percutâneas, mini-incisões e as videocirurgias, sendo essas cada vez mais difundidas; atualmente, em Cascavel, já se disponibiliza ao paciente da rede privada profissionais aptos para artroscopia em quase todas as articulações que têm a técnica preconizada não experimental. No caso da cirurgia de coluna, a evolução vai em direção das técnicas percutâneas, sendo que a videocirurgia não teve a evolução como nas grandes articulações. Os pacientes já têm ciência da existência da videocirurgia e, em breve, a porcentagem de cirurgias abertas deve reduzir. Hoje, mesmo na rede pública, o paciente deseja a cirurgia por furos e não por cortes, mas a não incorporação de técnicas pela tabela do SUS e a não atualização dos valores, inviabilizam a disponibilidade da maioria dessas técnicas na rede pública, devido ao alto custo dos insumos e baixo valor repassado pelo SUS, principalmente na média complexidade.

SN: No trauma, o que mais preocupa?
DA: O atendimento do paciente traumatizado, principalmente o politraumatizado, é hoje o principal campo de atuação dos ortopedistas. O paciente nesta situação necessita de avaliação ortopédica de urgência e requer imobilização imediata do segmento fraturado e a instituição do tratamento em caráter de urgência, pois o atraso leva ao desvio de fraturas, consolidação com desvio e maior número de sequelas. O tratamento da fratura é sempre mais simples e de menor morbidade do que o tratamento das sequelas da mesma. O grande desafio está em como oferecer tratamento ágil e adequado aos pacientes que não são emergência via Samu, que compõe a maioria dos casos, e que poderiam ser resolvidos em hospitais de média complexidade.

SN: No atendimento eletivo, quais são os principais desafios?
DA: Doravante, o grande foco na ortopedia eletiva são as doenças degenerativas, que terão um aumento gradativo devido ao aumento da expectativa de vida, da melhora do acesso ao atendimento e do maior conhecimento dos próprios pacientes. A população está envelhecendo, mas não quer abrir mão das atividades diárias. A meta é a melhora da qualidade de vida e a manutenção das atividades físicas na terceira idade, uma vez que os mais experientes [risos] não querem permanecer só em casa.

SN: Nota-se um aumento da incidência de doenças degenerativas em pacientes jovens. Por que isso vem ocorrendo?
DA: Deve-se, em parte, ao aumento da disponibilidade de ortopedistas e ao maior acesso ao atendimento, o que promove aumento de diagnósticos. Também vemos situações em que pacientes que tiveram traumas quando jovens e passaram por cirurgias prévias, com envelhecimento precoce da articulação podem desenvolver artrose precoce. Há também os pacientes que nascem com má-formação de ossos e articulações, que igualmente têm maior probabilidade de desenvolver artrose precoce, assim como os portadores de doenças reumáticas e autoimunes. Infelizmente, ainda temos muita automedicação, com uso crônico e desenfreado de anti-inflamatórios, que se o paciente buscasse atendimento, resultaria em um tratamento com medicações direcionadas com condroprotetores e desbridamentos articulares precoces antes da deterioração da articulação.

SN: Como prevenir?
DA: Evitar extremos físicos e manter hábitos saudáveis, como alimentação adequada e atividades físicas regulares, que visam à manutenção de amplitude de movimento das articulações, alongamento da musculatura e fortalecimento da mesma, sempre respeitando os limites individuais. Devemos ver que o corpo humano tem um componente tecidual (onde agem as medicações) e um componente biomecânico (onde necessita de reabilitação). O que se busca é o equilíbrio entre os dois. Uma pessoa que tem uma boa musculatura, alongamentos em dia e uma boa amplitude articular, sempre terá uma maior capacidade física e menos dor, ou uma evolução mais lenta dos processos degenerativos ligados ao envelhecimento.

SN: É importante incluir o ortopedista nos check-ups?
DA: O sistema musculoesquelético ou locomotor, além de nos manter em pé e proteger órgãos vitais como cérebro, medula, pulmão e coração, também merece atenção. Pessoas com sintomas dolorosos, alterações de sensibilidade, fraqueza ou instabilidades devem sempre realizar uma avaliação ortopédica. Pacientes assintomáticos - mulheres a partir dos 40 anos e homens a partir dos 65 – devem realizar avaliação anual para investigação de osteoporose e artrose.

SN: A revolução tecnológica no diagnóstico por imagem modificou o trabalho do ortopedista?
DA: Facilitou muito. Há disponibilidade, hoje, em Cascavel, de exames complementares, não só de imagem, como de tomografias e de ressonâncias, mas também fisiológicos como cintilografia e eletroneuromiografia, que dispensam o deslocamento para grandes centros como Curitiba ou São Paulo para realização dos mesmos. Esses exames são úteis na confirmação ou no descarte de hipóteses e na classificação do grau da doença, o que auxilia na tomada de decisões sobre o tratamento a ser instituído. A coerência é que, inicialmente, sejam solicitados exames mais simples, como radiografias e ultrassonografias, e os de alta complexidade conforme necessidade da indicação individual.

SN:
Na ortopedia, como estão as pesquisas para o tratamento da dor?
DA: Atualmente há reconhecimento também da classe ortopédica sobre a importância do diagnóstico diferencial dos tipos de dor: somática, visceral, neuropática e mista. O ortopedista começa a se dedicar à compreensão da dor e às opções no tratamento. Compreende-se melhor como a dor inicial evolui para uma dor regionalizada e para dor crônica neuropática. O uso de moduladores de dor e estabilizadores de membrana neural, os inibidores da recaptação da serotonina e os de efeito dual, assim como os bloqueios anestésicos e infiltrações auxiliam a reduzir gradativamente a dor até que, com os sintomas controlados, se possa discutir com o paciente o tratamento das causas que a originaram, as opções de medicação com condroprotetores, reabilitação ou cirurgia. A própria Sociedade Brasileira de Ortopedia, como visto nos últimos congressos, já incluiu nesses eventos cursos e palestras sobre dor, com abordagem de diferentes especialidades médicas, com grande participação dos ortopedistas que reflete o interesse comum em dar o melhor tratamento possível.

SN: E quando o paciente não melhora apenas com medicação, já se indica cirurgia?
DA: O ideal, salvo situações de dano tecidual progressivo ou perda de função, é que primeiro se controle a dor antes de se indicar o tratamento cirúrgico. As opções de analgesia endovenosa, infiltrações e bloqueios também auxiliam. A cirurgia age em um segmento localizado, a medicação agirá em todo organismo do paciente. Ao médico cabe indicar o tratamento que considera o mais adequado, esclarecendo riscos e benefícios ao paciente para que o mesmo possa tomar a decisão mais adequada. A decisão final, é do paciente. Basta ter respeito mútuo.

SN: Após 12 anos de trabalho no setor público está migrando para o setor privado. O que motivou a decisão?
DA: O politraumatizado é direcionado via Samu para hospitais de referência, mas as fraturas de traumas de menor energia que não são consideradas emergências, apenas urgências, aguardam por semanas por uma avaliação ortopédica e, com isso, uma fratura sem desvio não imobilizada evolui para uma fratura desviada; essa, não sendo operada, resulta em uma fratura consolidada com desvio, situação que necessitará de uma cirurgia muito mais agressiva e maior morbidade do paciente. Hoje a rede pública foca em atendimento básico e de alta complexidade, mas a maioria das cirurgias ortopédicas é de média complexidade e não há interesse dos hospitais de grande porte em realizá-las. Pacientes vivem em um limbo até deixarem de ser urgência e virarem casos eletivos de sequela. Na minha experiência, um ortopedista mantém uma população de 50 mil habitantes sem fila de espera, isso com um hospital de média complexidade. Em Cafelândia, onde trabalhei por 12 anos, não tínhamos fila para cirurgia de trauma ou eletivas na média complexidade. Tínhamos apenas cinco pacientes que aguardavam cirurgia de alta complexidade não passíveis de realizar em hospital de média. Havia no pronto-socorro um protocolo para direcionar os pacientes: central de leitos para as emergências, hospital para urgências de grande porte e imobilização e avaliação ambulatorial para traumas de pequeno porte, onde o ortopedista – de uma a duas vezes por semana - avalia o paciente e define o tratamento definitivo cirúrgico ou não. Para que isso funcione sem o fluxograma oficial do Estado, necessita que secretário de saúde, prefeito e promotores reconheçam que o paciente com fratura será um sequelado se não tratado adequadamente, fato que tem boas probabilidades de acontecer visto o sistema não conseguir absorver o volume de pacientes. Mas, a partir do momento em que os gestores (prefeitos e secretários) e o respaldo ao cidadão (pelo Ministério Público) alegarem que o paciente não é responsabilidade deles, o mesmo permanecerá no limbo, sem tratamento. Por tudo isso se tornou inviável o atendimento de uma ortopedia resolutiva dentro das indicações e técnicas disponíveis pelo SUS (sistema defasado em relação à evolução da ortopedia). Geralmente, nas outras especialidades, as cirurgias retiram algo do paciente, e após a retirada dos pontos, ele recebe alta médica. Mas na ortopedia, a cirurgia não é o fim de um tratamento e sim o início de outro, que necessitará de seis a 12 meses de acompanhamento, bem como corre o risco de intervenções cirúrgicas futuras.

SN: O que precisa mudar no seu entendimento?
DA: A descentralização da saúde, com a criação de microrregionais, e a estruturação de serviços de ortopedia de média complexidade, com atendimento regular e estável que perdure mais do que a gestão política, para que o paciente com traumas de menor energia e não emergenciais possa ter atendimento e cirurgia. Há esperança de que os novos gestores estruturem serviços, que tratem os pacientes e não apenas promova a compra de ambulâncias para trazer para Cascavel, transferindo a responsabilidade do tratamento para outro Município. Há a real necessidade de novos centros hospitalares de ortopedia, mas de média complexidade, para absorver a demanda. Entretanto, se nem Cascavel, até o momento, tem um hospital municipal, como cobrar dos prefeitos das cidades menores circunvizinhas?

SN: Quando falamos de trauma ortopédico, o que é importante ressaltar?
DA: Que o melhor tratamento é a prevenção. E o tratamento do trauma terá sempre melhor resultado do que o da sequela. Estamos expostos a traumas do acordar ao dormir, e tem gente que cai da cama. Quando me formei, há 18 anos, tínhamos muitos casos de adolescentes tetraplégicos por mergulho em água rasa, e que, por meio de campanhas de educação, teve a incidência reduzida. A sistematização do atendimento do politraumatizado, com a regularização do Samu, o uso de capacetes e do cinto de segurança, também leva à diminuição de lesões. Além do cerco ao motorista embriagado, que realmente diminuirá com a educação da população e respeito às leis de trânsito.

SN: Fora do centro cirúrgico, como é o Alex?
DA: Mais calmo que no consultório, com certeza. Também gosto muito de ler, brincar com meus filhos, de churrasco e boa música, podendo ser rock, jazz ou blues. Cozinhar para amigos e a família também faz parte da minha rotina, pois meu sobrenome é “cozinheiro” [risos].

SN: Por que, após conhecer quase todo Brasil, optou por retornar ao oeste do Paraná?
DA: Retornei em 2006, pois além de estar perto da família, que reside em Corbélia, aqui na região digo que se cavoucar e deixar cair uma semente, alguma coisa nasce. No norte, a disponibilidade de serviços médicos e a possibilidade de instituição de tratamentos avançados era muito limitada. Pena que aqui, apenas pacientes privados têm acesso a tratamento adequado e a população carente acaba à margem da Medicina disponível, semelhante ao que vivenciei no Tocantins. Pena também que a perda de foco com assuntos menos relevantes não permite que se desenvolva uma visão de saúde coletiva e acessível. Acho o oeste do Paraná com potencial incrível de crescimento e muito bom para se viver. Devemos dar valor ao que temos em Cascavel, semeando e adubando atitudes produtivas, que darão frutos mais produtivos ainda!

SN: Que dica daria para quem deseja cursar medicina ou seguir ortopedia hoje?
DA: Se você é uma pessoa do bem, a Medicina, com certeza, lhe agradará, pois é fazer o bem todo dia a quem você nem conhece. Recomendo que durante a graduação sempre se perguntem diante de uma especialidade: será que terei paciência para realizar isso todo dia pelos próximos 40 anos? Ortopedia tem campo a ser explorado, demanda de pacientes reprimida; mesmo no Paraná será importante, no futuro, com o envelhecimento da população.

"Tenha uma alimentação saudável, pratique exercícios físicos e viva perto de quem você ama. Plante coisas boas na vida, que a vida
te dará coisas boas de volta e trate os outros como você gostaria de ser tratado.”


Dr. Alex Koch
CRM-PR 21037 | RQE 13019 - Ortopedia e Traumatologia

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