SAÚDE NEWS

Entrevistas

Dr. Lucio Araripe, 50 anos de psiquiatria


“O psiquiatra trata da alma, lida com a essência do ser humano e suas circunstâncias”

A Revista Saúde News teve a oportunidade de entrevistar o médico Dr. Lucio Araripe de Abreu e Lima, que completará cinquenta anos no exercício da especialidade de psiquiatra, em dezembro de 2018. Doutor Lucio possui um amplo currículo e uma trajetória profissional exemplar, pautada pela ética, compromisso e cuidado com a saúde mental. Concluiu sua graduação em 1968, na Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Pernambuco. Sua carreira, em hospitais psiquiátricos, iniciou em 1966. No mesmo ano começou sua residência em psiquiatria, na Clínica Pinel, no Recife, local em que também foi plantonista. No Hospital da Tamarineira (Hospital Psiquiátrico Público), foi doutorando e residente. Mais tarde se tornou Psiquiatra Assistente e Diretor Clínico do Instituto de Psiquiatria do Recife e, posteriormente, no Sanatório Sayão em Araras, São Paulo. Foi psiquiatra concursado do Estado de São Paulo, Coordenador de Assistência Psiquiátrica do Hospital Santa Mônica em Salvador, Bahia, Psiquiatra e Diretor Clínico da Clínica Maringá, Diretor Clínico do Instituto de Neuropsiquiatria de Cuiabá e em Cascavel Diretor Clínico do Hospital São Marcos, hoje desativado. Desde 2002 trabalha em seu consultório e presta assistência médica aos alunos das APAES da região de Cascavel.

Saúde News (SN) - Qual é o balanço desses cinquenta anos de psiquiatria?
Dr. Lucio -
O mundo mudou muito e nós somos uma testemunha viva dessa mudança. Quando me formei logo comecei a atuar como psiquiatra. Lembro-me que nenhuma escola de medicina formava mais do que dois psiquiatras por ano. Em 1970, apresentei dois trabalhos no Congresso Brasileiro de Saúde e Higiene Mental, que foi realizado no auditório da PUC em São Paulo. O convidado de honra foi o professor Henri Ey, psiquiatra francês muito estudado na área da psiquiatria. Estavam presentes aproximadamente 200 psiquiatras. Recentemente, no congresso da ABP em Curitiba o número de profissionais foi muito além, compareceram mais de 3.000 mil. Trabalhei em grandes hospitais, como médico assistente e como diretor. Essas vivências contribuíram para que eu tivesse uma visão mais humanística da vida, o que me fez melhorar como pessoa e como profissional, aplicando isso diariamente nos meus atendimentos.

SN - Como explica a existência hoje de tantos psiquiatras?
Dr. Lucio -
O mundo moderno está estressante. As cidades tornaram a vida muito difícil, o trânsito nas capitais, a verticalização das moradias, a falta de contato com a natureza, entre outros fatores. As pessoas não têm tempo para conversar, preferem a televisão, a internet, o smartphone. O sono sempre está comprometido, a pressão no trabalho está cada vez pior. Essas coisas juntas provocam um verdadeiro tsunami de estresse. Tanto é que, na maioria das consultas, a primeira palavra que o cliente diz é: “Doutor estou ansioso, estressado, deprimido”.

SN - O mundo mudou, as doenças mentais também mudaram?
Dr. Lucio -
O conceito de Transtorno Mental, como hoje a psiquiatra denomina as doenças, tem sofrido transformações. Certamente aquilo que na década de 50 e 60 era uma reação emocional a esperanças frustradas, relações amorosas interrompidas ou mesmo aspirações profissionais contrariadas hoje, já é considerado uma doença psiquiátrica, a depressão. Perdemos a tristeza. Ninguém mais fica triste e esse sentimento já é interpretado como uma doença. Todo dia estamos tomando conhecimento do aumento da porcentagem do transtorno depressivo. Estima-se que cerca de vinte milhões de americanos sofram de depressão. Os pacientes dão uma olhada no Google e já chegam ao consultório dizendo que sofrem de depressão ou transtorno bipolar. Na maioria dos casos estão com suas vidas desarrumadas e muito ansiosos.

SN - Nos últimos cinquenta anos o senhor observou que as pessoas estão mais perturbadas?
Dr. Lucio -
Tenho aprendido a lição da vida no convívio que tive por trinta e cinco anos com pacientes em grandes hospitais psiquiátricos e mais de quinze em consultório. Vejo que as pessoas estão se afastando da natureza, deixam de fazer uma simples caminhada, perderam o prazer de ler um livro, os relacionamentos são superficiais, entre um casal de namorados há sempre um celular, poucos param para olhar o céu ou um por do sol. As grandes psicoses, as doenças mentais graves estão onde sempre estiveram. Deu-se, entretanto, um aumento dos fatores estressantes e suas consequências tais como ansiedade, síndrome do pânico e episódios depressivos. Aprendi que as necessidades das pessoas continuam as mesmas. O sofrimento vem, sobretudo pela imposição da vida moderna sobre elas. Ninguém mais tem tempo para nada. O psiquiatra cuida da alma. Ele tem que ver e ouvir seu paciente, indagar da sua vida, amores, frustrações, trabalho, família, hábitos, enfim indagar sobre a felicidade. Cuidamos do imaterial, da alma e do sofrimento, da angústia, do medo, de situações que não aparecem nos exames de imagem.

SN - O uso de drogas influencia nos transtornos mentais?
Dr. Lucio -
As drogas, maconha, cocaína, crack, ecstasy e outros psicoestimulantes, hoje fazem parte dos elementos perturbadores da mente das pessoas. Em alguns casos provocando danos irreversíveis em suas vidas. Ainda estamos num processo de entender a dimensão dos danos das drogas. O Canadá, no início do mês de outubro legalizou em todo país o uso da maconha. Vamos aguardar uns dez anos para entender o resultado dessa decisão. O governo do Canadá deverá avaliar seriamente esses resultados, mas, precisamos de uns dez anos para apresentar dados científicos confiáveis. Lembro-me que quando saí da Faculdade de Medicina no Recife, em 1968, nunca tive conhecimento de um colega que tivesse feito uso de um simples cigarro de maconha. Meus amigos do bairro da Casa Forte, no Recife, a turma do futebol nos tempos do colégio, nunca soube de ninguém que usasse um simples cigarro de maconha.

SN - Houve realmente progresso científico na área da psiquiatria?
Dr. Lucio -
Sim. A psiquiatria tem se beneficiado dos mais modernos meios da química e física. Melhorias nos exames de imagens, em pesquisas para entender melhor as reações cerebrais a determinadas drogas. A química trouxe a psiquiatria para a modernidade. Em 1972, foi sintetizada a Fluoxetina e depois de quatorze anos em testes, finalmente em 1986 entrou no mercado, revolucionando o tratamento de diversos transtornos, principalmente a Depressão Maior. A década de 1980 ficou conhecida como a década do cérebro. Hoje, existem antidepressivos, medicamentos para ansiedade, pânico, psicoses, crises convulsivas que trazem ótimos resultados no tratamento desses transtornos.

SN - Qual seria o principal instrumento do psiquiatra para tratar um paciente?
Dr. Lucio -
O ouvido. O psiquiatra trata da alma, lida com a essência do ser humano e suas circunstâncias. Um transtorno mental sempre vem acompanhado das circunstâncias da vida da pessoa. É muito raro a doença existir exatamente como está no livro. Há uma vida em sofrimento e esse sofrimento está na alma da pessoa. Mas, onde está a alma? A gente não a vê numa imagem ou detecta num exame de sangue. Precisamos ouvir nosso paciente e estabelecer com ele um vínculo sólido e consistente. Isso exige paciência, muita paciência. É necessário ouvi-lo muitas vezes.

SN - Por que escolheu Cascavel para dedicar-se ao atendimento de consultório?
Dr. Lucio -
Vim para Cascavel para dirigir o antigo hospital São Marcos. Com a desativação do hospital, mesmo tendo recebido convites para dirigir outros hospitais, decidi abrir um consultório. Nos primeiros anos, praticamente não atendia ninguém porque era novo na cidade. Certo dia comecei a receber clientes que chegaram até a mim recomendados pelo grande colega, Dr. Álvaro Rabelo. E eu não o conhecia. Depois que ele me enviou uns dez clientes, fui ao seu consultório para conhecê-lo e agradecer os pacientes que ele me encaminhava. Foi então que me deparei com um Homem Santo. Dr. Álvaro Rabelo foi um dos maiores médicos do Paraná e apesar de não ser psiquiatra, um dos mais sábios conhecedores da alma de todos nós. Hoje, estou bem estabelecido em meu consultório, mas tenho uma profunda gratidão e admiração pelo colega Álvaro Rabelo (in memoriam).


Dr. Lucio Araripe de Abreu e Lima
CRM-PR 13246
Psiquiatria - RQE 13018


"Acredito que o psiquiatra deve se preocupar mais com o paciente e não tanto com a doença. Ouvi-los é fundamental, na maioria dos casos, a doença não está na pessoa e, sim, nas circunstâncias de sua vida."
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