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Entrevistas

“Na linguagem do futebol, a Patologia seria o meio de campo da Medicina”


O médico patologista Carlos Floriano de Morais costuma usar o futebol como analogia para explicar às pessoas qual é a serventia da especialidade que exerce em Cascavel, há mais de 25 anos. A comparação é bem simples: em um time, existem os jogadores da defesa, os do meio de campo e os do ataque. Na medicina é a mesma coisa. Por comparação, a defesa seria composta pelos profissionais do mundo acadêmico: cientistas estudiosos dos apectos básicos das doenças. Já o ataque seria composto pelos médicos especialistas na linha de frente, clínicos e cirurgiões. No meio de campo, fazendo a ligação entre um setor e outro, fica o patologista. Esta ilustração condensa um pouco o desafio  enfrentado diariamente por este médico, que é doutor em Patologia pela USP-SP, Membro Titular das Sociedades Brasileiras de Citopatologia e Patologia e da USCAP (“The United States and Canadian Academy of Pathology”). Também atua como Diretor e médico do Laboratório APC - Anatomia Patológica e Citologia, com unidades em Cascavel e Toledo. O paulistano nasceu em 29 de novembro de 1952. Logo que se formou, primeiramente veio para Toledo, a convite de amigos que exaltavam as possibilidades profissionais da região. Um ano e meio depois, mudou-se para Cascavel em 1991, porém mantém estreitos laços com todas as cidades da região.


Saúde News – Por que a escolha a Patologia?
Dr. Carlos –
Quando você termina o curso de Medicina na Universidade, são muitas possibilidades de especialização que se apresentam, mas durante o curso você vai eliminando as opções menos atraentes a sua personalidade. Tenho vários motivos para gostar da minha especialidade: o patologista tem a possibilidade de fazer seu próprio horário, já que não trabalha diretamente com o paciente. É certo que os prazos têm que ser cumpridos, mas a flexibilidade de horários ajuda muito no desenvolvimento profissional. Além disto, gosto de trabalhar com exames e laudos técnicos que orientam o profissional da linha de frente quanto aos possíveis procedimentos a serem tomados. Para isto é necessário constante leitura e atualização. Cursei Medicina na USP, com especialização em Anatomia Patológica, fiz doutorado e depois decidi sair do ambiente acadêmico, para iniciar na atividade privada. O meio universitário é bom, porém tem suas complicações como erros na forma de administrar e hierarquizar uma instituição, ambição exagerada e mal direcionada de muitos professores, muito “carreirismo” acadêmico e egos hipertróficos a todo custo que podem levar a prejuízos qualitativos. Por isto, achei que sendo autônomo teria mais espaço para me desenvolver e ajudar aos outros. Apesar disto, mantenho laços com nossas Faculdades de Medicina locais. A área específica de atuação da Patologia é a análise e estudo de órgãos, tecidos (biópsias) e fluidos corporais (citologia), com a finalidade de determinar um diagnóstico das doenças.

Saúde News – Nos conte sobre sua analogia entre patologia e futebol?
Dr. Carlos –
Costumo fazer uma analogia entre a medicina e um time de futebol, que explica bem como funciona: a defesa é composta pela Academia e pelos cientistas, com suas pesquisas e frequentemente sem contato direto com os pacientes. Já o ataque é formado pelos clínicos e cirurgiões que lidam com situações mais práticas, mais imediatas, às vezes sem uma informação científica completa sobre o paciente. O espaço da Patologia é o meio de campo, atendendo as duas pontas do processo. Nossa experiência de mais de 25 anos nos ensinou que a melhor estratégia é a de manter contato constante com as partes envolvidas, seja por telefone ou pela internet. Acho que se o Tite, treinador da seleção brasileira no último mundial, tivesse escalado dois patologistas como meio de campo nós teríamos trazido o “caneco”, pois nós teríamos facilitado a vida do Neymar.

Saúde News – Nesta comparação com time de futebol, como fica o “torcedor”, ou seja, o paciente?
Dr. Carlos –
O patologista geralmente não é visto diretamente pelo paciente. O paciente tem contato geralmente com o seu médico clínico ou cirurgião. Mas o patologista dá mais base ou evidência científica para o clínico ou cirurgião atuar. De fato, é preciso ter certo jogo de corpo para balancear entre não ficar somente muito em cima dos livros e ter contato permanente com o clínico e com o cirurgião. O produto final do nosso trabalho é o laudo escrito, mas o contato direto com os colegas médicos também faz a diferença e certamente incorpora o paciente no processo. A comunicação direta precisa ser feita e aprimorada o tempo todo.

Saúde News – Qual o recado para o patologista que deseja se dar bem “nesse jogo”?
Dr. Carlos –
De fato, é uma decisão que envolve, de um lado, bastante subjetividade quanto ao momento certo de conversar com os colegas e, de outro lado, a objetividade das conversas. É importante que o patologista aprenda a ser um dialogador, ao mesmo tempo que seja uma pessoa aberta à investigação científica, que tenha curiosidade constante, que sempre esteja informando-se sobre as doenças e que busque sempre novos horizontes e contatos com outras especialidades. Tem que gostar de conversar, de trocar informações com os clínicos, de pesquisar, de ir atrás de tudo o que acontece na área. A Internet pode ajudar neste sentido, pois você consegue se manter em dia com as novas técnicas e procedimentos, mas o conhecimento virá somente com o aprendizado direto com especialistas preparados e capacitados e, é claro, com equipamentos adequados.

Saúde News - Neste ambiente de análise, com o avanço da internet e dos sites de busca, como fica a condição do doutor Google?
Dr. Carlos –
Hoje é comum encontrarmos pacientes do doutor Google. Tem até aquela piada sobre o paciente que chega ao consultório atrás de uma “segunda opinião” após ter feito a consulta com o doutor Google. Normalmente, as pessoas são bem-intencionadas, mas, temos que tomar muito cuidado com o que se lê na rede, principalmente, receitas médicas e procedimentos ligados à medicina, publicadas muitas vezes sem aval científico e oriundas de fontes duvidosas; isto é uma verdadeira “fake-news”. É preciso saber lidar caso a caso e ter bastante paciência com o paciente, pois tudo se resolve no dia a dia através de informações técnicas precisas e em linguagem própria para que ele a compreenda.

Saúde News – Quais são os últimos avanços no setor?
Dr. Carlos –
Há muitas novas tecnologias e conhecimentos que vieram para ajudar muito o trabalho dos patologistas, principalmente nas áreas de imunologia e genética, repletas de constantes inovações. Algumas já têm muitas influências na decisão terapêutica, ao passo que outras logo devem mudar o panorama atual. No entanto, são avanços que necessariamente não anulam os conhecimentos já existentes em nossa profissão. Elas, em verdade, constituem-se em ações que se complementam ou se somam às já existentes, ou seja, ajudam a aprofundar um conhecimento já existente. A consulta clínica e o exame físico são o início necessário de tudo.

Saúde News – Sobre o câncer?
Dr. Carlos –
Não existe um só tipo de câncer e, sim, uma variedade enorme. As pesquisas mais modernas mostram que os resultados de estudos genéticos estão cada vez mais próximos de ajudar a desvendar os mecanimos de muitas destas doenças. A tendência em geral, é de aumento do número de casos de cânceres, por fatores como aumento da longevidade do ser humano, fatores ambientais, etc. O câncer é considerado doença multifatorial, que resulta de erros no controle da divisão celular. O núcleo das células contém o manual de instruções para o bom funcionamento celular; o câncer quebra as regras deste manual. Há várias dicas de prevenção do câncer, entre outras medidas, citaria seguir a dieta da vovó, com muitos alimentos naturais, como frutas e outros vegetais, ingestão de pouca gordura saturada, etc. Importante também é observar a história médica familiar e se há casos de cânceres entre os membros mais próximos da família. Outra ação importante é aproveitar a grande variedade de testes laboratoriais e de imagem que podem detectar o início do câncer. Os cânceres de mama e de próstata são bons exemplos disso. Há inclusive vacinas que podem ajudar na prevenção de alguns deles, por exemplo vacinas contra o HPV e contra a hepatite B. Deve também ser lembrado que, fora da área dos cânceres, há outros testes laboratoriais que podem ser feitos; consulte seu médico a respeito. Além disto, nunca é demais relembrar os conselhos já bem divulgados para a saúde em geral, como por exemplo, não fumar, beber moderadamente, dormir bem, praticar atividades físicas, evitar situações de “stress” crônico, entre outras. Eles são sempre bem-vindos.

Saúde News – Nossa Região é polo avançado em medicina, como observa este cenário?
Dr. Carlos –
Nossa região se destaca entre as demais cidades do Brasil e oferece uma ampla variedade de especialidades médicas, atraindo pacientes de vários locais. Por isso, o número de excelentes profissionais que desembarca de várias partes do Brasil por aqui é significativo. A Patologia tem que dar suporte científico a todo este movimento, com exames de qualidade, para a elaboração de diagnósticos cada vez mais exatos e confiáveis.

Saúde News – Algum agradecimento?
Dr. Carlos –
Tenho que agradecer à minha família, meus dois filhos e em especial à minha esposa, Ana Meri Esteves de Morais, que gerencia o laboratório e toma conta dos recursos humanos, à equipe de patologistas do Laboratório APC e a todos os colaboradores. Isto me permite mais tempo para me dedicar aos diagnósticos. Também sou grato aos colegas médicos de toda a região pela confiança e amizade, e a todas as pessoas de bem, que buscam um mundo melhor.
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