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Entrevistas

Pesquisadores da Unioeste estudam a relação de agrotóxicos como disruptores endócrinos


Professores da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste) realizam estudos sobre os efeitos e possíveis alterações no sistema endócrino causado pela exposição aos agrotóxicos. As pesquisas são feitas no Centro de Assistência em Toxicologia (Ceatox) do Hospital Universitário do Oeste do Paraná (HUOP).
De acordo com a coordenadora geral, professora e farmacêutica bioquímica Ana Maria Itinose, a equipe foi convidada a participar do Grupo de Trabalho Agrotóxico da 10ª Regional de Saúde (RS), ainda em 2012, com o objetivo de trabalhar e aprofundar questões relacionadas ao uso de agrotóxicos na região. Além disso, o Paraná e a região oeste possuem uma economia com prevalência agrícola, o que vem de encontro com os projetos elaborados pelo Centro.
“Observamos ao longo dos anos que as pessoas buscavam mais informações relacionadas aos agrotóxicos e se determinada doença poderia ter sido causada por eles. Porém, nós não tínhamos essa resposta e não havia para onde encaminhar as dúvidas. Mesmo os pacientes que, por ventura, vinham com alguma intoxicação aguda por agrotóxicos, percebiam que o contato era de um longo período, o que tornava as exposições crônicas”, explica.
Para a professora e equipe, isso gerou determinada angústia e foi o principal motivador para dar início aos estudos, que objetivam obter informações e dados referentes aos possíveis problemas crônicos causados pelos agrotóxicos.
O primeiro passo foi ampliar a equipe e iniciar o ambulatório de toxicologia do HUOP, em conjunto com a 10ª RS. Dois médicos foram incorporados ao grupo e começaram a consultar e traçar um perfil dos pacientes. Estes pacientes são encaminhados pela 10ª RS após terem passado por uma triagem na unidade básica, determinando a necessidade de uma investigação mais específica. No ambulatório de toxicologia, são investigadas exposições aos diversos tipos de agrotóxicos e além da avaliação da equipe médica e farmacêutica, são realizados exames.
Inicialmente o ambulatório foi feito como um piloto, atendendo pacientes que permanecem em acompanhamento. “Após a avaliação detalhada do paciente são necessários exames mais específicos que estamos buscando implementar, o que será um grande avanço, pois conseguiremos analisar o material biológico do paciente, como urina e sangue, e também a água que ele toma, para verificar se não está contaminada”, explana a professora e farmacêutica bioquímica Carla Brugin Marek, responsável pelo laboratório do Ceatox.
Segundo a farmacêutica, ainda há necessidade de mais investimentos, para que o laboratório comece a realizar os próprios exames e que haja a manutenção dos materiais e equipamentos, o que tornaria o Ceatox do HUOP uma referência. “O perfil do nosso Centro é diferenciado e está aprofundando os estudos de intoxicações crônicas, sendo o primeiro no Brasil a efetuar este tipo de pesquisa”, afirma.
A interferência do agrotóxico pode acontecer por meio da exposição ou por ingestão de água e alimentos. Mais um estudo irá avaliar também gestantes e crianças com o objetivo de averiguar se as doses de agrotóxicos até então consideradas aceitáveis, são prejudiciais.
Outro trabalho que vem sendo realizado envolve animais e a deltametrina, substância inseticida utilizada tanto nas lavouras quanto dentro das casas. “Queremos verificar a consequência dessa substância no organismo e se ela age como disruptor endócrino, ou seja, mesmo em pequenas quantidades se ela pode agir e alterar o sistema hormonal, o que pode acarretar em doenças como, por exemplo, obesidade e malformações”, informa o professor, médico pediatra e endocrinologista, Fabiano Sandrini.
Neste caso, o trabalho do Ceatox é integrado exercendo também um papel de formação dos profissionais e novos pesquisadores. Atualmente dois mestrandos do Programa de Pós-graduação em Ciências Farmacêuticas da Unioeste, dedicam-se a esta pesquisa.
Os estudantes aplicaram durante determinado período uma dose baixa do agrotóxico em ratas prenhas que se encontram no biotério do laboratório. No momento, estão sendo avaliados os filhotes e posteriormente a 2ª geração. A experiência ainda está em andamento e a finalidade é comprovar se o agrotóxico causou alguma alteração ou doença nos animais.


“O perfil do nosso Centro é diferenciado e está aprofundando os estudos de intoxicações crônicas, sendo o primeiro no Brasil a efetuar este tipo de pesquisa”,
professora Carla Brugin Marek, responsável pelo laboratório do Ceatox.



A importância do Centro de Assistência em Toxicologia
O Ceatox foi implantado no HUOP em 2005, sendo vinculado à Secretaria Estadual de Saúde do Paraná (Sesa) pela Divisão de Intoxicações e Zoonoses, com o objetivo inicial de atender os casos de acidentes com insetos e animais peçonhentos, ou então, intoxicações agudas exógenas. O Centro presta esclarecimentos sobre a intoxicação e acompanha o caso.
Além disso, o Centro desenvolve outras atividades e investigações por meio das pesquisas, o que proporciona para a população um local de assistência em saúde e uma referência em estudos mais aprofundados e detalhados da região.
De acordo com o professor Sérgio Nascimento Pereira, médico especialista em medicina legal e perícia médica, o Ceatox exerce um papel importante juntamente com a Universidade da qual faz parte. “Acredito que a função destas pesquisas cabe a nós, pois estamos dentro de uma Universidade pública e assim podemos dar um retorno para a sociedade por meio dos resultados dos nossos estudos e comprovações”, enaltece.


Pesquisa da Fiocruz comprova a relação dos agrotóxicos com problemas de saúde
Em junho deste ano uma pesquisa publicada na Revista Científica Saúde em Debate trouxe informações alarmantes para Cascavel e região, associando o uso de agrotóxicos com as malformações congênitas. O estudo “Associação entre malformações congênitas e a utilização de 
agrotóxicos no Paraná, Brasil” foi realizado por Lidiane Silva Dutra e Aldo Pacheco Ferreira, ambos pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).
A pesquisa comparou os períodos de 1994 a 2003 e 2004 a 2014, considerando a utilização de agrotóxicos no milho e soja. Os dados evidenciaram uma alta incidência de casos de malformações devido à exposição de gestantes.
Na região de Cascavel, 192 pessoas nasceram com problemas no sistema nervoso e 177 casos de fenda palatina, segundo o estudo, por conta de consumos associados a agrotóxicos. O projeto também abordou a grande quantidade de veneno adquirido na região e a falta de controle para este consumo.


“Acredito que a função destas pesquisas cabe a nós, pois estamos dentro de uma Universidade pública e, assim, podemos dar um retorno para a sociedade por meio dos resultados dos nossos estudos e comprovações”,
professor Sérgio Nascimento Pereira, pesquisador do Ceatox.