SAÚDE NEWS

Entrevistas

Psiquiatria e saúde


A Saúde News conversou com o médico psiquiatra Dr. Marcelo Cano, que cultiva o respeito ao paciente e o atendimento humanizado na identificação, diagnóstico e tratamentos dos transtornos afetivos e mentais. São 15 anos de medicina e 12 promovendo saúde mental em Cascavel e região. Confira!


SN - O preconceito é um dos principais motivos pelos quais as pessoas evitam procurar o psiquiatra. Como mudar esse estigma da profissão?
Dr. Marcelo Cano -
O conceito de transtorno mental como processo decorrente de alterações biológicas, psicológicas e/ou ambientais é recente. A enfermidade mental tem sido interpretada de muitas formas diferentes ao longo da história, bem como quem cuida delas. As pessoas eram qualificadas como “perigosas”, “doentes”, “anormais” ou “especiais”. Muito do preconceito, ainda visto hoje, tem origem em épocas em que a falta de conhecimento e os meios terapêuticos utilizados eram bastante precários. Estigma e desinformação criam a concepção errônea de que os transtornos mentais ocorrem por uma deficiência de caráter, algo que pode ser controlado apenas com esforço e boa vontade. A informação é o principal caminho para combater o rótulo de “loucura” e de “médico de louco”, que ainda impede muitas pessoas que estão sofrendo, de encontrar auxílio adequado para seus males.

SN - Quais são os sinais para identificar quando um familiar ou amigo precisa de ajuda psiquiátrica?
Dr. Marcelo Cano -
Definir normalidade em Psiquiatria sempre gerou uma série de controvérsias, tamanho é o conjunto de sintomas que podem ser apresentados ou agrupados, em diferentes quadros clínicos. A miríade de afetos é ampla e sua variação comum a todos os indivíduos saudáveis. Algumas alterações como o luto, por exemplo, se mostram como uma tristeza extrema e não deixam de ser uma reação a um evento negativo da vida. Para se suspeitar de um afeto como a tristeza, a ansiedade ou o medo, por exemplo, como sendo um afeto patológico deve-se levar em consideração o tempo de duração, a sua intensidade, sua constância ao longo dos dias e o prejuízo (ocupacional, familiar e social) que causa ao indivíduo.

SN - Os transtornos psiquiátricos são observados em extremos de idade ou apenas em adultos?
Dr. Marcelo Cano -
Os transtornos psiquiátricos acometem todas as idades, nem sempre com as mesmas proporções epidemiológicas, mas não poupa nenhuma. Alguns transtornos são mais comuns e não se encerram no período de vida que se apresentam, vitimando o indivíduo por toda a sua existência. São comuns na infância e adolescência os Transtornos de Déficit de Atenção e Hiperatividade (desatenção, hiperatividade e impulsividade), Transtorno de Conduta (associado ou não ao TDAH - padrão persistente de agressividade e negligência às regras sociais básicas) e os transtornos do humor depressivo e ansiosos. Demências (Alzheimer, por exemplo) e depressão estão entre os transtornos médicos que mais comprometem as fases mais tardias da vida. A identificação precoce e tratamento eficaz, multidisciplinar, reduzem o sofrimento e diminuem sua morbidade e mortalidade.

SN - A depressão tornou-se um problema de saúde pública. Segundo a OMS, 5,8% da população brasileira possui a doença. Como identificá-la e tratá-la?
Dr. Marcelo Cano -
Diferente da tristeza comum, a tristeza depressiva é um transtorno com sintomas físicos e psíquicos bem definidos. Anormalmente intensa e duradoura, compromete a vida social, profissional e familiar. Perda de energia, alterações do apetite e sono (aumentados ou diminuídos), dores, sensação de angústia e desconforto, dificuldades de concentração, retraimento social, baixa autoestima e sentimentos de culpa excessivos, irritabilidade, problemas no trabalho, distorção da realidade, diminuição da libido e ideação suicida fazem parte do imenso número de sintomas, por meio dos quais a depressão pode se apresentar e, quando presentes, sinalizam a necessidade de ajuda especializada. Aproximadamente, apenas um terço das pessoas que sofrem de depressão estão sendo tratadas de forma adequada. O diagnóstico é clínico e o uso de medicação, associado à psicoterapia é a melhor forma de tratamento.

SN - A população está mais ansiosa, com o Brasil liderando as estatísticas da América Latina. Como identificar e diferenciar a ansiedade normal da patológica?
Dr. Marcelo Cano -
A ansiedade é definida como um estado de humor negativo e inquietante, uma insatisfação temerária relacionada ao futuro. Para a maioria das pessoas funciona como um estímulo criativo e adaptativo, levando a busca antecipada e coerente de soluções para possíveis problemas. À medida que se torna muito intensa, constante e frequente, passa a causar prejuízo no funcionamento global, comprometendo a execução das tarefas diárias. Diferencia-se do medo por ser mal definida enquanto o primeiro é específico e relacionado a um objeto ou evento conhecido (destinado à proteção frente a uma ameaça real). Os pensamentos catastróficos são comuns, pois os sintomas, tanto psíquicos (tensão, nervosismo e irritação, insegurança, falta de concentração) como somáticos (dores e contraturas musculares, sensação de asfixia e sufoco, taquicardia, tontura) produzem sofrimento acentuado. O sofredor procura diferentes especialidades médicas, inclusive atendimento de urgência, por julgar ter uma enfermidade grave e incurável.

SN - Qual a frequência e a importância de falar sobre o suicídio?
Dr. Marcelo Cano -
Os suicídios resultam de uma complexa interação de fatores biológicos, genéticos, psicológicos, sociológicos, culturais e ambientais. É definido como a trágica perda da vida humana, de forma voluntária e intencional. Figura hoje, entre as três principais causas possivelmente evitáveis de morte, entre pessoas de 15 a 34 anos e está entre as dez principais causas de morte no mundo. Outrora predominante em populações idosas, atualmente é frequente em populações mais jovens tornando-se um problema de saúde pública. A maior parte dos indivíduos que tiram a própria vida são portadores de um transtorno psiquiátrico específico e tratável (transtornos do humor bipolar, depressão, alcoolismo, drogadição e esquizofrenia). A identificação precoce desses transtornos e seu tratamento adequado, na maioria dos casos, polpa a vida do enfermo e evita o desdobramento catastrófico que é o auto aniquilamento.


“Não existe uma fórmula específica para uma mente saudável. Planejar o dia a dia para vencer os desafios como, por exemplo, conseguir e manter um emprego, proteger-se da violência urbana, equilibrar as finanças, esquivar-se de hábitos ou estilos de vida que comprometam a saúde e, ao mesmo tempo, praticar ações que promovam a integridade física, emocional e social seria um bom começo, embora seja uma tarefa difícil. Uma mente saudável está relacionada ao bem-estar individual e necessita de autoavaliação diária, flexibilidade empática e resiliência.”


Dr. Marcelo Fabricio Fernandes Cano
Psiquiatra
CRM-PR 19285 / RQE 13142
Membro da Sociedade Brasileira de Psiquiatria