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Entrevistas

Uma médica comprometida com a vida


Hematologia é o ramo da medicina que estuda as células sanguíneas, medula óssea e gânglios linfáticos. Quem nos traz mais esclarecimentos sobre a especialidade é a Doutora Meide Daniele Urnau.

O hematologista atua em diversas patologias, como anemias, alterações imunológicas, distúrbios da coagulação do sangue, câncer de sangue e órgãos linfáticos e transplante de medula óssea, bem como na hemoterapia (doação e transfusão de sangue). Doutora Meide Daniele Urnau chegou a Cascavel em 2010. Formou-se em Medicina pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e cursou residência de Clínica Médica na Universidade Federal de Santa Maria. Na época do estágio de oncologia estudava horas sem sentir o tempo passar, mas a hematologia surgiu em sua vida por uma fatalidade: seu pai teve diagnóstico de mieloma múltiplo, câncer de sangue, quando ela ainda cursava o segundo ano da faculdade. Vivenciar um familiar como paciente, apesar da dor, foi enriquecedor para a médica. Isto é, essa experiência aliada ao entusiasmo pela oncologia motivou sua escolha pela hematologia. Uma especialidade complexa, tanto que em Cascavel, até o presente momento, é possível contar nas mãos o número de profissionais dessa área.


SN - Quais são as principais doenças hematológicas? Existe como preveni-las?
Dra. Meide -
Podemos dividir em doenças benignas, nas quais as mais frequentes são anemia, plaquetopenia (redução das plaquetas com risco hemorrágico) e trombose venosa. Já as doenças malignas, as mais frequentes são os linfomas (câncer linfático) e as leucemias. Em termos de prevenção das doenças benignas, uma alimentação saudável, rica em vitaminas e ferro, pode prevenir alguns tipos de anemia. Controlar o peso, evitar o tabagismo e praticar exercícios físicos regularmente, contribuem na prevenção da trombose venosa. Infelizmente, a prevenção de câncer é mais difícil, pois desconhecemos fatores desencadeantes. Contudo, evitar o tabaco, bebidas alcoólicas, produtos químicos tóxicos, como derivados de combustíveis e agrotóxicos, são formas de prevenção para todos os tipos de câncer, inclusive os hematológicos.

SN - Que doenças são mais frequentes na rotina de consultório?
Dra. Meide -
Entre as doenças benignas, o atendimento mais frequente é ferritina elevada, seguido por investigação de trombofilia (alteração sanguínea que facilite a formação de trombos). Entre as neoplasias, a mais comum é o linfoma.

SN - Quais são os tipos de câncer relacionados ao sangue e órgãos hematopoiéticos?
Dra. Meide -
São as leucemias, o mieloma múltiplo e os linfomas (Hodgkin e não Hodgkin).

SN - Sobre transplante de medula óssea?
Dra. Meide -
O transplante de medula óssea pode ser de dois tipos: autólogo, no qual o paciente e doador são a mesma pessoa, ou alogênico, no qual o paciente recebe a medula de outra pessoa. O transplante realizado em Cascavel é do tipo autólogo. Como o paciente é seu próprio doador, fazemos a coleta das células tronco hematopoiéticas por um processo chamado de aférese. Para tal, o paciente recebe medicação subcutânea por alguns dias e, após avaliação de contagens sanguíneas, procedemos à coleta diretamente das veias por meio de uma máquina especial, sem nenhuma cirurgia. Em seguida, o paciente é internado, submetido à quimioterapia em doses elevadas, recebendo na sequência as células coletadas de forma semelhante à transfusão de sangue. No transplante alogênico, a diferença é que a coleta de células-tronco hematopoiéticas é realizada por punção da medula óssea em centro cirúrgico na maioria das vezes, podendo ser usado o método de aférese em alguns casos, ou sangue de cordão em outros.

SN - Como ser um doador?
Dra. Meide -
O transplante de medula óssea está em funcionamento desde setembro de 2009. Realizamos, em média, 20 a 30 transplantes autólogos ao ano. Para ser doador, basta cadastrar-se junto ao Hemocentro, coletando apenas uma pequena amostra de sangue, na qual avaliamos características imunológicas do sangue na busca de compatibilidade. É fundamental salientar que se trata de um cadastro. Assim, toda vez que o doador trocar seu endereço ou telefone, deve atualizar os dados, com muita facilidade, apenas acessando o site do REDOME/INCA. Também é de suma importância explicar que hoje estamos com mais dificuldade em conseguir leitos de transplante do que doador, pois os serviços transplantadores são poucos, com longas filas de espera. As políticas neste momento precisam voltar-se ao aumento do número de leitos, não somente a campanhas de doação como temos visto. A importância do transplante de medula óssea é imensa. Ao contrário do pensamento geral de que o transplante é indicado para doenças em que a quimioterapia não funcionou, a sua indicação é mais adequada para os casos em que houve sucesso do tratamento quimioterápico, mas o risco da doença voltar (recidiva) é muito elevado, aumentando, portanto, a chance de cura definitiva.

SN - O que é o teste NAT?
Dra. Meide -
O NAT – teste do ácido nucléico – é uma tecnologia desenvolvida para detectar material genético de vírus como o HCV (hepatite C) e HIV (Vírus da Imunodeficiência Humana) nos doadores de sangue. A diferença em relação aos exames convencionais utilizados é que o NAT diminui o que chamamos de janela imunológica, o período entre a pessoa ser infectada e o resultado dos exames ficarem positivos. Para tentar deixar mais claro, explico que todo sangue doado passa por diversos testes sorológicos para tentarmos garantir que não haverá risco de contaminarmos o receptor com doenças como HIV, hepatites, Chagas, sífilis. Infelizmente, quando alguém se contamina com tais vírus, os exames não identificam a contaminação imediatamente. O período entre o contágio até a positivação do exame é denominado de janela imunológica. Nesta fase, o doador poderá contaminar o receptor de sangue sem que possamos identificar. Na tentativa de detectar a infecção no menor tempo possível, se tem criado novos exames, como o NAT, que consegue uma janela imunológica de 6 a 20 dias, pois avalia o agente viral, sem necessitar da produção de anticorpos que demora muitos dias, até meses. É fundamental que tenhamos muita consciência ao doar sangue, pois nem mesmo o NAT consegue zerar a janela imunológica, podendo ocorrer contaminação na transfusão de sangue. Doar sangue para fazer exames é atitude irresponsável e indecorosa com nosso próximo.

SN - A trombose é muito comum no Brasil. Quais são seus sintomas e riscos? É possível evitá-la?
Dra. Meide -
A trombose é a formação de coágulos sanguíneos no interior dos vasos. Os sintomas variam com a localização do trombo. O local mais comum de ocorrer trombose é nas veias das pernas. Neste caso, o paciente percebe inchaço, dor, vermelhidão e a sensação de temperatura mais elevada na perna atingida quando comparada com a perna normal. Há um tipo muito grave de trombose, com risco de óbito elevado, chamado de tromboembolismo pulmonar. Neste caso, o trombo atinge vasos dos pulmões. O paciente pode sentir falta de ar, tosse, dor no peito ao respirar, taquicardia (coração acelerado). É importante lembrar que há quadros de trombose com poucos sintomas, tornando o diagnóstico mais difícil.
O risco de trombose se eleva com diversas situações: viagens longas com pouca movimentação das pernas, tabagismo, obesidade, uso de anticoncepcionais, cirurgias ou doenças que deixem a pessoa acamada por período prolongado, gravidez, câncer e doenças sanguíneas que facilitem a formação de coágulos (trombofilia). A trombofilia deve ser suspeitada em pacientes ou familiares de pacientes com história de abortos de repetição, acidente vascular cerebral ou infarto agudo do miocárdio (com menos de 50 anos ou com história de trombose sem outro fator causal identificado), bem como trombose em locais pouco frequentes, como vasos cerebrais.
A prevenção pode ser feita com cessação do tabagismo, perda de peso e atividade física regular, além do uso de meia elástica compressiva em viagens longas, após cirurgias extensas ou quando houver imobilização prolongada. Em pacientes com câncer ou que tem trombofilia, pode ser necessário o uso de medicações anticoagulantes ou antiagregantes plaquetários, a ser avaliado caso a caso.

SN - O que é a Doença de Gaucher, como diagnosticar e tratar?
Dra. Meide -
Trata-se de uma doença genética extremamente rara, na qual há falta de uma enzima para romper substâncias gordurosas no interior das células, levando ao acúmulo de gordura que deixa a célula inchada. Consequentemente, o órgão todo fica volumoso, inchado. Atinge principalmente fígado, pulmões, baço e medula óssea. O diagnóstico geralmente é feito por geneticistas, dosando a atividade da enzima defeituosa (beta – glicosidase ou glicocerebrosidase) nos leucócitos (glóbulos brancos) ou nos fibroblastos (célula da pele). Também pode ser feito o diagnóstico por meio da identificação das células de Gaucher em biópsia de medula óssea. O tratamento é com a reposição da enzima deficiente (terapia de reposição enzimática), ou com medicações que reduzem as substâncias gordurosas depositadas (terapia de redução do substrato).


As raízes
Nasceu em 20 de julho de 1980 em Santo Cristo, pequena cidade do interior do Rio Grande do Sul. Permaneceu nesta cidade até os 17 anos. Em seguida mudou-se para Porto Alegre para seguir com os estudos. Segundo a médica sua infância foi uma delícia, rodeada de quatro irmãos carinhosos, sendo a caçula temporona, com 10 anos de intervalo entre ela e seu irmão. “Lembro-me de brincar muito na sombra das árvores do quintal espaçoso da casa que nasci e onde meus pais vivem até hoje. Minha mãe, que trabalhava muito, lembra-me de deitar à noite no sofá, bem juntinho, para assistir as novelas e desenhos da pantera cor-de-rosa, que ambas adoravam. E de meu pai, a lembrança mais gostosa era o grande companheiro na patinação artística: levava-me toda semana até outra cidade para poder realizar meu sonho de patinar”. Hoje Dra. Meide é casada, mas tem orgulho de suas raízes: “sou casada com Luiz Fernando Zoch Lopes, um companheiro que admiro muito, cada dia mais. Meus pais e irmãos são meus espelhos de valores dignos, honestidade e caráter. Filhos, ainda não tenho, mas estão nos planos”. No tempo livre a hematologista gosta de cozinhar com o marido e amigos. Também gosta de cuidar e passear com suas cachorrinhas. “Sou muito ligada aos animais, tenho muito carinho por eles. Por fim, também gosto de ler e estudar sobre espiritualidade e comportamento humano”, declara. Sua história na medicina não foi um conto de fadas. Na faculdade contou com o apoio e orientação do professor Dr. Sérgio Goldani, que não a deixava desistir. “Teve diversos momentos em que senti vontade de desistir. Mas, após iniciar a vida prática, passei a me encantar com a profissão. Hoje vejo a medicina como uma missão”, enfatiza Dra. Meide. Quem a trouxe para Cascavel foi Dra. Daniela Leão. Quando chegou foi bem recebida pelo corpo clínico da Uopeccan e por Dr. Lorival Teixeira dos Santos.


Todo dia é uma troca
“Sempre parto do pressuposto de que devo atender meu paciente do jeito que eu gostaria de ser atendida. No trabalho deixamos a vida pessoal de lado e nos concentramos em fazer o melhor possível para cada atendimento. Eu aprendo muito com os pacientes, eles me ensinam a valorizar as pequenas coisas da vida. Todo dia é uma troca, eles que são beneficiados e eu também. Sabemos que vamos perder alguns deles, mas sou grata por ajudar a tornar esse momento menos difícil para a família. É sempre uma vitória quando conseguimos superar junto com o paciente uma leucemia, um linfoma ou câncer. Encontrar eles depois de seis meses, um ano depois com cabelos crescendo, voltando a trabalhar, casando e até tendo filhos é muito gratificante.”


Dra. Meide Daniele Urnau
CRM-PR 27435
Hematologia e Hemoterapia
RQE 245

Trabalha no Hospital de Câncer UOPECCAN, no Instituto de Hematologia de Cascavel como hemoterapeuta - com consultório de hematologia no mesmo local, além de ser professora do internato de oncologia na Faculdade Assis Gurgacz (FAG). Também presta serviços de avaliações hematológicas nos hospitais: Policlínica, Maternidade Dr. Lima, Gênesis e São Lucas.