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Entrevistas

“Cascavel tem tudo para se tornar referência nacional em saúde pública. Só depende de nós.”


Rodrigo Miyahira é Clínico Geral, anestesiologista (RQE 10524) e atua na área médica há 21 anos. Formado pela Universidade Federal Fluminense, de Niterói (RJ), o profissional trabalha em Unidades Básicas de Saúde (UBSs) de Cascavel (Aclimação e Neva), de Toledo (Jardim Porto Alegre, Pioneiras, Vila Industrial e Central), além de realizar plantões no Hospital Universitário do Oeste do Paraná (HUOP) e na Unimed. Apaixonado pelo SUS, o médico contou à Saúde News sobre sua experiência na saúde pública e como melhorá-la.

SN - Como começou sua trajetória no SUS do Paraná?
Dr. Rodrigo - Cheguei ao Paraná em 1998 e comecei a trabalhar em cidades pequenas do sudoeste. Lá eu fazia aquela medicina de 50 anos atrás, já que era o único médico da localidade, responsável por praticamente tudo. Depois de circular por algumas cidades vim para o Oeste e estou até hoje. Trabalho como médico há 21 anos e todo dia aprendo. Sou otimista e sinto bastante orgulho do SUS. Vejo como grande papel do médico o de sensibilizar e motivar os pacientes. O medicamento que mais uso no consultório é a palavra. Isso não falta só no SUS, está faltando em toda humanidade. Sinto-me privilegiado em fazer a medicina que eu sempre quis, é uma questão de perfil.

SN - O que quer dizer com “questão de perfil”?
Dr. Rodrigo - Há diversos perfis médicos. O meu se encaixa na UBS, mas não nas Unidades de Pronto-Atendimento (UPAs), que é um ambiente muito tenso. Eu até defendo a importância de um adicional para os profissionais que atuam neste setor. Fala-se tanto em tecnologia, contudo é preciso olhar mais nos olhos do paciente. Por isso, o perfil é tão importante, já que ele reflete na qualidade do serviço realizado.

SN - Sua casa é a UBS. Como a vê e como melhorá-la?
Dr. Rodrigo - Vejo a saúde pública forte e com UBSs importantes, resolutas e com autonomia para realizar atendimentos diferentes de acordo com a demanda da comunidade local. A UBS é o carro-chefe da saúde pública e nunca vai ser substituída. Todos os outros programas e ações vêm para somar, trabalhar lado a lado à unidade. Um exemplo são as ESF, Estratégia de Saúde da Família, que são boas iniciativas. Por outro lado, não devemos achar que são as salvadoras da pátria. As unidades básicas tem um papel muito especial dentro de uma comunidade e nós precisamos rediscutir sua relevância. Os frequentadores se conhecem sentem-se acolhidos. Também precisamos evoluir em estrutura, já que o posto deveria realizar pequenas suturas, socorrer pacientes com crises de hipertensão, cólicas renais não complicadas, entre outros. Além disso, precisamos zelar pelo diálogo entre todos nós dentro das unidades, o que também falta na saúde como um todo.

SN - A prevenção na saúde pública?
Dr. Rodrigo - A prevenção é tudo. Precisamos entender o real sentido dessa palavra tão importante na saúde. Os órgãos privados estão investindo três a quatro vezes mais em prevenção do que a saúde pública, pois dá retorno. É necessário investirmos maciçamente na atenção básica e prevenção. Devemos tratar não só as pessoas que apresentam sintomas ou estão doentes, mas também preservar a saúde das que estão bem. Nessa área, precisamos elaborar estratégias diferentes em cada UBS e, por isso, defendo a autonomia delas. Os cenários mudam de uma hora para outra, em uma região temos mais hipertensos, já em outra, mais diabéticos...

Saúde News - Em sua opinião, qual o potencial da saúde pública de Cascavel?
Dr. Rodrigo -
Se eu fosse um descamisado gostaria de morar em Cascavel. De dia poderia ir a boas UBSs, depois para UPA e à noite estaria no HUOP. Temos ainda a Unioeste, 10ª Regional e a Secretaria de Saúde. Nossa saúde pública é boa, está à frente, embora nunca agrademos a todos! Nós podemos nos tornar referência nacional, basta querer. Temos um material humano diferenciado e as nossas infraestruturas são apropriadas, bem como dispomos de excelentes profissionais. Logicamente, sempre há espaço para melhorias e avanços. Verifica-se ainda, uma grande capacidade para oferecer muito mais serviços, mas que devido a questões burocráticas acabam não saindo do papel. Se implantássemos uma filosofia de atendimento humanizado como pedra fundamental da saúde pública e, que não precisa de dinheiro para isso, daríamos um salto incrível na melhoria da saúde e bem-estar coletivo.

SN - O que podemos melhorar no SUS?
Dr. Rodrigo -
Uma maneira simples e eficiente é criarmos um mecanismo de avaliação da qualidade de atendimento. A Saúde no Brasil é vista em números e gráficos. Devemos deixar um pouco de lado essa política e incentivar mais o diálogo e a valorização dos profissionais. Fala-se tanto de gestão de pessoas e, na prática, ela acaba passando despercebida. Ninguém mais quer ouvir, mas todo mundo quer falar. O SUS tem que ter uma só linguagem, mas todos merecem ser ouvidos.

SN - Sobre a informatização da saúde?
Dr. Rodrigo -
Há várias inovações tecnológicas que podem contribuir com o setor. Conhecer a história clínica do paciente é fundamental para qualquer diagnóstico. É uma anamnese registrada eletronicamente, sistematizada e de rápido acesso. Certamente acrescentará muito e também facilitará no agendamento de consultas, exames e outros serviços.

SN - Por dois anos o senhor realizou visitas às residências no bairro Aclimação. Como foi esse trabalho?
Dr. Rodrigo -
Esse trabalho era realizado junto com as Agentes Comunitárias de Saúde (ACSs), sendo 15 visitas por dia. Atendemos muitas pessoas acamadas, mas nossa missão também era atender as pessoas sadias (prevenção). Pelo menos a cada quatro ou cinco visitas encontrávamos casos de hipertensões graves, assintomáticas. O grande desafio era convencer essas pessoas a iniciarem os tratamentos, mesmo que não estivessem sentindo nada. Leva um tempo! Por isso, a relação equipe-paciente tem que ser valorizada. Não adianta uma UPA bem estruturada se os eventos cardiovasculares continuarem acontecendo. Com o diagnóstico precoce ajudamos a evitar complicações mais graves, bem como diminuímos a superlotação dos leitos no HUOP, pois 70% dos internados lá são por problemas decorrentes de hipertensão e diabetes. Nessas visitas também temos a oportunidade de realizar orientações em relação a uma alimentação equilibrada, sobre a importância da prática de atividades físicas, entre outras informações que promovam a mudança de hábitos para uma vida mais saudável e longínqua.


"Para evoluir no âmbito da saúde coletiva, não precisamos de mais dinheiro, o ponto chave é harmonizar todas as unidades que prestam atendimento à saúde pública, unindo forças e estreitando as relações entre elas. É uma questão de diálogo, gestão organizacional e força de vontade. Também ampliar essa interação somando com outras secretarias: educação, agricultura, cultura, entre outras. Quando eu trabalhava em Santa Isabel do Oeste, coordenava uma equipe de visitas na área rural e 70 a 80% dos problemas de saúde da comunidade, nós conseguíamos resolver ali mesmo."