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Entrevistas

João Medeiros Braga Junior: quase 50 anos de medicina


Dr. Braga iniciou sua trajetória médica ao ser aprovado no vestibular da PUC de Curitiba, em 15º lugar. O ano era 1962. Em 1967, formou-se em medicina e saiu da faculdade como clínico e cirurgião geral. “Era comum essa prática. Não havia muitos locais para fazer residência”, recorda.
Quando recebeu o diploma, resolveu pedir baixa do Exército Brasileiro. “Consegui uma oportunidade para ganhar mais dinheiro. Se eu seguisse como militar, acabaria parando na fronteira, o que não queria. Então, em 1968 fui para Francisco Beltrão”.
No sudoeste do Paraná, Braga “fazia de tudo”. Em pouco tempo começou a trabalhar também em Capanema, onde arrendou um hospital. “Quando eu chegava ao hospital, a enfermeira não dizia detalhes do caso. Ela simplesmente me falava: ‘temos um doente’. Assim, fiz muito parto, muita operação de hérnia e outras”.
Depois de dez anos trabalhando nas duas cidades, Braga percebeu que não queria mais atender todos os tipos de casos e doentes. Almejava algo específico, uma especialidade. “Foi assim que encontrei uma vaga no Hospital Pedro Ernesto, no Rio de Janeiro, para fazer residência médica em otorrinolaringologia. Fiquei três anos estudando lá”, lembra. Hoje, o hospital pertence à Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ).
Durante um congresso no fim de sua residência, Braga foi convidado para atuar na otorrinolaringologia em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul. “Eles precisavam de um otorrino para trabalhar no Hospital Universitário e para dar aulas na Universidade Federal do Mato Grosso do Sul. Aceitei”, recorda.
Fez muitos cursos e participou de congressos neste período, tanto fora (Alemanha e França) como dentro do Brasil. Nas viagens, sempre aproveitava para fazer passeios culturais. “Assisti a orquestra filarmônica de Berlin tocar a nona sinfonia de Beethoven sendo guiada por um dos maiores maestros que já existiram, o Herbert Von Karajan”.
Permaneceu por 14 anos em Campo Grande e mudou-se para Cascavel, onde já conhecia muitos médicos da “velha guarda”. “Quando atendia no sudoeste do Paraná, vinha muito para Cascavel trazer pacientes e utilizar a estrutura médica que tinha na cidade. Trazia os casos que não conseguia resolver e assim conheci muita gente”. Na Capital do Oeste, começou seu atendimento no Hospital Dr. Lima, onde também fazia cirurgias. Abriu uma clínica próxima ao Hospital São Lucas e, logo em seguida, começou a trabalhar no Instituto do Pulmão. “Também atuei de 1998 a 2015 no Cisop. Hoje atendo no Jácomo Lunardelli e faço cirurgias no Hospital Santa Simone, em Corbélia”.


A otorrinolaringologia
Saúde News - Um caso inesquecível?
Dr. Braga -
Uma criança chegou até mim por intermédio do Batatinha (apresentador de televisão). Ela precisava ir à Alemanha para fazer um tratamento, mas para viajar, como tinha má formação congênita e paralisia cerebral, os médicos de lá exigiram que ela fizesse a operação de retirada da amígdala e da adenoide. Como o risco de morte era muito alto, ninguém queria fazer o procedimento em Cascavel. Quando chegou às minhas mãos, decidi encarar. Criamos uma equipe de profissionais e optamos por realizar a operação no Hospital Santa Simone, em Corbélia, onde atuo sempre. A criança tinha 80% de risco de morte, tanto durante como depois da cirurgia. Fiz e deu tudo certo. A criança ficou dois dias no hospital e um mês depois embarcou à Europa. Isso aconteceu há uns quatro ou cinco anos.

Saúde News - Quais conselhos daria aos jovens otorrinolaringologistas?
Dr. Braga -
A otorrinolaringologia mudou. As funções dessa especialidade aumentaram. Na minha época, o profissional só atendia a problemas de ouvido, nariz e garganta. Hoje, o otorrinolaringologista faz cirurgia plástica no olho, no nariz. Posso dizer para eles se prepararem, se capacitarem e frequentarem todos os congressos e cursos que puderem, dentro e fora do país. Recomendo procurar os grandes centros de referência no mundo para aprender, como eu fiz na Alemanha e na França. Estude sempre e procure se associar com outros otorrinos, tanto para discutir casos e para crescerem juntos.

Saúde News - O que faria ou deixaria de fazer na sua história médica?
Dr. Braga -
Eu faria tudo de novo. Estudei bastante, me capacitei, fiz cursos fora e pelo que dizem, sou bem recomendado e elogiado. Acredito que fiz e ainda faço um bom trabalho.

Saúde News - Qual dos três órgãos tratados pelo otorrino é o mais difícil e qual é o que causa mais problemas?
Dr. Braga -
O mais difícil é o ouvido. Há tantas doenças e problemas que é preciso muita técnica e experiência para operar e diagnosticar um ouvido doente. Um exemplo é o colesteatoma, um tumor que ocorre nas meninges, no sistema nervoso central. É preciso retirá-lo, pois ele destrói o ouvido. Operá-lo é muito difícil, exige habilidade e vivência. O órgão que mais ocorrem problemas é o nariz, com os campeões: rinite, desvio de septo, amigdalite e adenoide. O bom é que a adenoide é bastante rápida de resolver. Uma vez, em um mutirão, operei 34 adenoides numa tarde. Quase ninguém acredita, mas aconteceu.

Saúde News - Sobre a importância da otorrinolaringologia para a saúde da população?
Dr. Braga -
Toda criança ou adulto que respira mal vive mal. As pessoas com esse problema têm dificuldades em dormir, aprender, fazer exercício, alimentar-se, tem baixa memorização e muitos outros. O otorrino é responsável por garantir essa qualidade de vida.

Saúde News - Sobre o implante coclear, quais as vantagens?
Dr. Braga -
Ele é muito necessário. Existem casos onde ele recupera 100% da audição do paciente e, além de poder fazer algum surdo ouvir pela primeira vez, pode evitar que crianças cresçam surdas-mudas, pois quem não ouve não fala. O impedimento da disseminação da tecnologia é o preço. Esperamos sensibilidade do governo nessa área para não perdermos essa tecnologia fantástica.

Saúde News - Tonturas e quedas nos idosos. Como o otorrino pode ajudar?
Dr. Braga -
Quando me formei, existia pouca medicação para esses casos de tonturas, quedas, labirintite e àquele famoso zumbido nos ouvidos. Esse zumbido incomoda, dá mal-estar e causa problemas emocionais. Hoje temos várias opções de remédios. O tratamento clínico evoluiu muito, mas a desvantagem ainda é que o paciente, normalmente, precisa tomar sempre as pílulas. Creio que em breve teremos avanços nisso.


Infância e juventude
Fruto de uma família portuguesa, João Medeiros Braga Junior, o Dr. Braga, nasceu às 11h do dia 17 de dezembro de 1938, em Campo Grande, subúrbio do Rio de Janeiro. Veio ao mundo nos tempos áureos da cidade maravilhosa, quando não havia assaltos, balas perdidas, trânsito e tanta poluição. Único filho homem em meio a quatro mulheres, Braga passou a infância em um sítio onde hoje é o bairro de Campo Grande. Desde cedo, seu interesse pela medicina despertou. “Quando minhas irmãs brincavam, para não me deixar de fora, eu virava o médico das bonecas delas. Essa ideia permaneceu em mim, nunca se dissipou. Com cinco anos eu já havia decidido o que eu queria ser”, conta.
Com toda a infraestrutura turística do Rio de Janeiro à disposição, Braga passou os tempos de moleque com muitas idas às praias, com pescarias em rios e diversas brincadeiras. “Íamos muito às praias chamadas de Prainha e Grumary, que eram desertas naquela época. Tomávamos banhos nus. Cruzávamos o morro onde o famoso arquiteto Lúcio Costa tinha uma casa. Era muito divertido. Tenho muitas saudades”. Outro fato curioso é que um ano após seu nascimento, a segunda guerra mundial teve início. Desde menino, ele ouvia notícias diariamente do confronto, veiculadas na rádio pelo Repórter Esso. “Ficávamos grudados no rádio ouvindo o Heron Domingues (âncora do programa à época). Esse acompanhamento diário por anos me fez virar um apaixonado pela história, filmes e fotos da segunda guerra”, relata.
A mãe cuidava da casa e dos filhos. Seu pai era marchante, ou seja, comprava cabeças de gado dos pequenos produtores da região e, quando chegava a determinada quantia, os marchava, a cavalo, rumo ao abatedouro. Depois de mortos, ele comercializava a carne.
O primeiro ofício de Braga foi como ajudante no açougue do pai. “Depois de abatidos no matadouro e carneados no açougue pelo meu pai, eu era o responsável pelas entregas. As pessoas gostavam de receber a carne em casa e eu ajudava nisso”, orgulha-se.
Como era costume das famílias portuguesas alfabetizar seus filhos em casa, até os dez anos Braga não havia frequentado a escola. Com o desejo de ser médico aceso, ele precisava iniciar os estudos. “Eu não era analfabeto, aprendi a ler e escrever com minhas irmãs. Fiz uma prova de admissão ao ginasial em um colégio particular, pois no público eu teria que começar desde o primário. Passei e comecei a estudar finalmente”.
Sua pré-adolescência também foi marcada pelo futebol, o qual ele jogava nos campos de várzea e acompanhava fanaticamente seus times de coração, o Flamengo e a seleção do Brasil. “Dos 12 aos 16 anos eu acompanhei todos os jogos do Flamengo no Rio. Quando tinha 12, passei por uma das maiores decepções da minha vida: a derrota do Brasil para o Uruguai na final da Copa do Mundo de 1950”.
Sua vida transcorreu feliz e tranquila até seus 15 anos de idade, quando seu pai teve um problema cardíaco e morreu. As irmãs começaram a trabalhar para sustentar a casa e para pagar os estudos do agora único homem da família.
Depois de concluído o ensino médio, Braga continuou lutando para se tornar médico. No entanto, era preciso certa estrutura financeira que ele não tinha. Chegou o período de servir à Pátria e junto dele uma porta se abriu. “Enxerguei ali uma oportunidade. Se eu entrasse e fizesse um curso de cabo, eu conseguiria custear a faculdade de medicina. Resolvi aceitar e passei no curso. Foi fácil. Fui promovido a terceiro sargento e acabei sendo transferido para Curitiba. Nesse período, me formei em técnico laboratorial, o que me ajudou muito durante a faculdade”.


Relacionamentos e filhos
Casou-se em maio de 1967, no último ano de faculdade, com Betty Ferreira Queiroz. Do casamento nasceram quatro filhos: Marcelo, Fabiano, João Alpheu e Natasha. Depois de muitos anos de união, separou-se e em sequência, em 1995, conheceu sua atual companheira, Terezinha Braga, com quem vive uma relação feliz até hoje. “Conheci a Terezinha em 1995 num baile do Country em Cascavel. Fomos apresentados, namoramos por três anos e nos casamos em 1998. Ela é o amor da minha vida. Uma mulher maravilhosa e incrível”.


Paixão por poesia, música clássica e associativismo
Dr. Braga é apaixonado por música clássica. O médico sempre procura fazer tudo ao som de Chopin, Wagner ou Beethoven. Conhecido como “o médico dançarino”, o doutor adora requebrar o quadril. “Sempre gostei muito de dançar. Agora não estou podendo devido a uma operação de um joelho. Com a minha idade, a recuperação é mais lenta”, disse.
Na literatura, o carioca é fã do poeta dos escravos, Castro Alves. “Sou capaz de proclamar poesias inteiras dele”, diz o também fã de Olavo Bilac, Casimiro de Abreu, Vinícius de Morais e Carlos Drummond de Andrade. Membro da Academia Cascavelense de Letras, Braga já escreveu algumas poesias, colaborou com alguns livros e tem um CD gravado com declamações suas. “Sou mais um ‘escritor de gaveta’. Faço alguns versos, mas não os divulgo”.
Questionado sobre uma viagem inesquecível, o otorrinolaringologista cita uma feita à França. Foram dois meses de imersão no charmoso país europeu, tanto na capital como pelo interior. “Fui participar de um congresso e acabei passando dois meses. O mais incrível foi um jantar que fui ao Palácio de Versalles, no salão azul, com o presidente da França à época, Valéry Giscard d’Estaing e o Ivo Pitanguy. Foi incrível! Paguei 500 dólares para me deliciar com uma lagosta e estar na presença desses grandes homens e convidados de todo o mundo”.
Em relação ao associativismo, Braga afirma estar sempre envolvido nas atividades da Associação Médica de Cascavel. “É muito importante para o desenvolvimento e fortalecimento da nossa classe”.