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17/11/2015
Fosfoetanolamina sintética: um debate sobre a cura para o câncer

 Nova substância divide opiniões, após relatos de cura e melhoras com o uso das cápsulas por pacientes. Órgãos de saúde defendem uma pesquisa aprofundada antes da liberação.
 

A divulgação de uma suposta cura para o câncer tem causado intenso debate entre pacientes, médicos, pesquisadores e a Justiça. A fosfoetanolamina sintética, que pode ser abreviada para Fosfoamina, foi desenvolvida pelo químico paulista Gilberto Orivaldo Chierice, de 72 anos. A substância começou a ser pesquisada por ele ainda em 1990, no pequeno laboratório do Grupo de Química Analítica e Tecnologia de Polímeros do IQSC (Instituto de Química de São Carlos), vinculado à USP (Universidade de São Paulo). 
O tema ganhou repercussão na mídia após pacientes relatarem bons resultados com o uso da cápsula e terem o fornecimento do composto cancelado, por determinação da Justiça. A decisão foi tomada no fim de setembro, pelo Tribunal de Justiça de São Paulo, com a justificativa de que não há nenhuma prova de que em humanos a substância produza algum efeito no combate ao câncer, devido a falta de pesquisas registradas e a não aprovação do composto como medicamento perante a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), sendo assim uma medida de prudência contra possíveis danos. 
Assim, uma intensa divulgação começou em todo país, levando a opinião pública a pressionar a liberação da droga para os pacientes. No começo de novembro, o ministro da Saúde, Marcelo Castro, anunciou que o Ministério criará um grupo de trabalho para analisar a eficácia e a segurança da fosfoetanolamina, financiando as pesquisas e colocando os laboratórios públicos à disposição dos pesquisadores, para chegar a uma conclusão sobre as propriedades anticancerígenas da substância.
Cascavel também entrou como uma das possíveis sedes da pesquisa da pílula. Por meio da família Gurgacz, a cidade passaria a ser sede para as análises da eficácia da substância e produção em grande escala, nas instalações dos laboratórios da FAG (Faculdade Assis Gurgacz) e do Hospital São Lucas. 
A decisão pela pesquisa foi tomada após uma audiência pública realizada no Senado Federal, com as comissões de Ciência, Tecnologia, Inovação, Comunicação e Informática e de Assuntos Sociais, em que pesquisadores, advogados e pacientes discutiram a liberação da fosfoamina.

Relatos de cura
A fosfoetanolamina é uma substância naturalmente produzida no corpo humano com diversas funções. Neste caso, a sua função é de sinalizadora, pois marca as células com problemas para o sistema imune entrar em ação. A fosfoetanolamina sintética funciona como um reforço nesse processo. Uma célula normal produz energia na organela denominada mitocôndria. Nas células cancerosas as mitocôndrias param de produzir energia e as células se reproduzem de forma acelerada fazendo com que o organismo envie mais energia para o tumor e ocorre o sinal de alerta, o organismo então, envia a fosfoetanolamina que marca as mitocôndrias e, assim, as células hospedeiras com problemas, fazendo com que o sistema imunológico entre em ação e, as células cancerígenas entram em um processo de destruição denominado apoptose. Ou seja, o próprio sistema de defesa do organismo mata as células malignas.
Nas redes sociais, inúmeros grupos foram criados de famílias apoiadoras da liberação do fármaco, que relatam processos de melhora da doença com o uso da pílula e até curas totais com o uso exclusivo do medicamento.
Um dos relatos disponíveis nas redes sociais conta que os resultados do uso do medicamento começam de forma imediata: “[...] Hoje é o 8º dia de tratamento, ela (mãe) já não vomita mais, não sente dor de cabeça, pra quem está lendo pela primeira vez, ela vomitava SANGUE, e sentia DORES DE CABEÇA intensas, e já não levantava da cama há exatamente quatro dias, e já não comia nada há três. Ontem conversei com ela pelo telefone, estava eufórica de tanta alegria, dizendo que Deus havia dado novamente a chance de viver, já não estava tomando nada mais, remédio algum além da Fosfo. [...]”, conta um rapaz que a mãe tem usado o medicamento.
Por algum tempo, as cápsulas eram fornecidas de graça pelo professor Gilberto Chierice, em São Carlos-SP. Mas em 2014, o IQSC proibiu a distribuição, por meio de uma portaria, afirmando que a substância só pode ser produzida e distribuída pelos pesquisadores após a liberação da Anvisa e do Ministério da Saúde. Alguns pacientes que utilizam o fármaco recorreram ao Poder Judiciário, que vem recebendo uma enxurrada de pedidos de reavaliação dos casos e concedendo liminares para que a droga possa ser entregue aos pacientes com autorização judicial, com aproximadamente 60 cápsulas do composto.
Por enquanto, a USP afirma que não tem como produzir a substância em grande escala, para atender todas as liminares, mas vai cumprir as decisões da Justiça dentro da capacidade suportada pelo laboratório. O grupo será formado pela Anvisa, para orientar os pesquisadores na elaboração dos protocolos clínicos e documentações necessárias para aprovação, também com apoio do INCA (Instituto Nacional do Câncer) e também da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz). A previsão é de que o grupo tenha um prazo máximo de 60 dias para apresentar o plano de trabalho das fases de desenvolvimento do projeto.
 
Mais pesquisas
Assim como há um grande grupo de apoiadores à liberação do medicamento, diversos médicos, pesquisadores e especialistas tem se posicionados contrários, sem antes aprofundamento das pesquisas e liberação pelos órgãos oficiais. 
Para aprovação como medicamento, é necessário realizar algumas etapas do processo, como: pesquisa em laboratório, pesquisa de utilização em seres humanos, documentação, aprovação dos estudos e laudos pelos órgãos regulamentadores. Em seguida, o sistema de saúde avalia se é válida a incorporação desse medicamento aos serviços de atendimento, para aí sim começar a ser receitado pelos médicos. 
Para que qualquer substância se torne candidata a ser um medicamento, deve passar por várias fases de experimentação em laboratório. Essas experiências têm como objetivo avaliar se a substância é capaz de matar células de câncer in vitro. Se for comprovada sua eficácia, os estudos passam então para experimentos com animais. 
Este período de experimentação em laboratório é longo e demora muitos anos, é necessário que se conheça bastante da molécula antes que ela comece a ser testada em pessoas. A fosfoetanolamina sintética só tem estudos até esta fase, ela nunca foi testada em pessoas, com resultados e análises documentadas, segundo Anvisa.
A partir deste momento, se a substância passar em todos os testes, ela está pronta para entrar em fase de testes com seres humanos. Os estudos em seres humanos são divididos em três fases. Na primeira fase doses muito baixas da substância são administradas para avaliar se há efeitos tóxicos do medicamento, caso o medicamento não cause problemas as doses vão sendo aumentadas até que se descubra a dose ótima para continuar as pesquisas. Nos estudos de fase 2 o medicamento é dado para pessoas na mesma dose e então se avalia, por exames, se o medicamento foi eficaz em reduzir o tumor. Finalmente no estudo de fase 3, se avalia se a substância é melhor do que os tratamentos já disponíveis. 
Apenas após ter todos esses resultados disponíveis a nova substância pode ser chamada de medicamento. Todos estes resultados devem ser submetidos à autoridade de saúde para que ela aprove que o medicamento seja comercializado e usado no dia a dia.
As exigências do Brasil para a liberação dos medicamentos estão de acordo com os protocolos definidos pela OMS (Organização Mundial da Saúde). Em declaração, o ministro da Saúde Marcelo Castro afirmou que o Ministério dará todo o suporte necessário para fazer os ensaios clínicos e chegar a um veredicto sobre a substância, para identificar quais os principais usos, suas possíveis contraindicações e efeitos colaterais, comprovando a sua eficácia, para que seja liberada o quanto antes para o uso dos pacientes e possa auxiliar a salvar vidas.

Fontes: Ministério da Saúde, IQSC (Instituto de Química de São Carlos), Dr. Felipe Ades (www.drfelipeades.com), Revista Época, Revista Super Interessante,
Site Liberem a Fosfoetanolamina (www.fosfoamina.wix.com/cura), Portal Catve, Gazeta do Povo, Jornal Zero Hora. 
 
 
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