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15/07/2015
Prisões sem grades

 Conheço a dona Lorena há cerca de duas décadas. Ela é uma senhora alta e elegante que hoje tem oitenta e muitos anos e, apesar da nossa diferença de idade, sempre nos demos muito bem. Ela sempre fez bordados incríveis, que pra mim parecem ser mágica, e o melhor suflê de cenoura da face da Terra. Mas, recentemente, em um tradicional churrasco de domingo, ela me assustou muito quando disse que não se lembrava de mim. Na hora, fiquei chocada e depois achei engraçado, interpretei como uma brincadeira porque ela sempre foi muito bem-humorada. Algumas semanas se passaram e o episódio se repetiu. Algum tempo depois aconteceu de novo, até que virou rotina. Relutei em acreditar e mais ainda em aceitar, mas a dona Lorena não lembrava mais de mim. Corrigindo o verbo: infelizmente, dona Lorena não lembra mais de mim e de quase ninguém à sua volta. Agora, ela vive numa espécie de mundo paralelo. Às vezes está conosco e às vezes está em outro lugar, com outras pessoas. E quando nos indaga sobre qualquer assunto, por mais estapafúrdio que seja o seu comentário, nós tentamos entrar no mundo dela.
Foi assim que eu fui apresentada a uma das mais terríveis doenças de que se tem registro, o “Mal de Alzheimer” que, até então, eu só conhecia na teoria e através de filmes como o “Diário de uma paixão”, por exemplo. É triste e ao mesmo tempo desafiador porque a dona Lorena tem um corpo perfeito. Ela caminha sem auxílio de bengala ou muleta, faz os trabalhos domésticos leves, toma banho sem a ajuda de ninguém, é bem perfumada e bonitona, mas a cabeça não é mais a dela. É um corpo perfeito preso a uma cabeça alienada ou desorientada. Tomara que eu nunca me esqueça dela, daquela dona Lorena dos bordados perfeitos e maravilhosos e do suflê de cenoura mais gostoso do mundo. Ah, quando ela lembra, ainda faz o suflê para a sorte de quem vai para o almoço. E quando raramente se recorda de mim, é tudo de bom e eu tento aproveitar ao máximo esses momentos.
Tão impressionantes quanto o relato acima, são as inúmeras histórias de pessoas que, por decorrência de acidentes, ferimentos provocados por criminosos ou, ainda, por consequências de doenças degenerativas; estão impedidas de se mexer. Pessoas que ironicamente gozam de perfeito juízo, veem tudo e a todos, ouvem, sentem cheiros e emoções. São como qualquer um de nós, mas que não podem se mover. São cabeças perfeitas presas a corpos absolutamente estáticos, sem reação.
Dentre outras iniciativas no sentido de conectar essas pessoas ao mundo, já existem programas de computador que possibilitam a elas a comunicação através de sinais emitidos pelos olhos, como na história contada no livro que se transformou em filme sob o título “O escafandro e a borboleta”. A obra é uma autobiografia de um jornalista francês que, após sofrer um acidente vascular cerebral, vê-se absolutamente paralisado, podendo mover apenas os olhos. E foi através de sinais emitidos pelos olhos que ele contou a própria história.
Não fossem suficientes essas prisões a que ninguém tem controle, mas que podem nos tirar a independência a qualquer momento, sem julgamento e sem aviso prévio, infelizmente existem outras formas de aprisionamento sem grades. Facilmente ficamos presos aos rótulos e estereótipos que a sociedade nos impõe. Preconceitos, medos, inseguranças, mágoas e ressentimentos ou sentimentos negativos também são capazes de ancorar multidões. Nesse caso, ao contrário do “Mal de Alzheimer” e das paralisias físicas, só existe uma pessoa capaz de desatar essas amarras para que a liberdade reine. Essa pessoa mora dentro de você.

Rosí Czepula Meassi
Jornalista
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