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15/07/2017
Medicina Humanizada, o que é isso?

A ciência não esgota o ser humano. A antropologia define o humano como pertencente ao campo do sagrado: é um valor absoluto em si mesmo. Uma bela definição: valor absoluto. Cada pessoa/paciente é uma vida única e oferece um desafio inédito. No caso dos médicos e de sua prática, a confiança é fundamental. O médico não pode reduzir o seu conhecimento à medicina compreendida apenas como ciência; se assim fizer, estará negligenciando o seu papel mais amplo de ator social, um verdadeiro promotor de cidadania.
O estabelecimento de uma melhor relação médico-paciente, com alguma solidez, se dará apenas com confiança e respeito mútuos. E isso exige tempo, exige partilha, relacionamento humano. O velho mandamento: “amar o próximo como a si mesmo”, é fundamental. A construção de uma correta empatia ficou em plano secundário com o advento das modernas tecnologias para o diagnóstico precoce e o tratamento imediato das patologias. O surgimento de dezenas de “especialidades” fatiaram o corpo humano, como se isso fosse possível. Se até o final do século XX ainda se buscava a formação primeiro de um bom médico, para depois a de um excelente especialista, o que se vê neste século é a busca precoce da especialidade, o que vem alterando o relacionamento mesmo entre os próprios profissionais da medicina.
Percebemos, no dia a dia, a necessidade de uma convergência entre a medicina e as chamadas “Humanidades”, como a filosofia, buscando-se um conceito unificado do homem com o seu mundo.
Muito tem se falado em “medicina humanizada” nos últimos tempos, aqui e alhures. O termo “humanizar” refere-se à busca do que existe de mais belo no ser humano, como integrante de um meio social que não seja hostil, injusto. Somente uma sólida formação humanista proporcionará uma correta discussão e entendimento dos novos conceitos trazidos pela Bioética e pela Ética Moderna. É necessário, para essa finalidade, que treinemos a mente e o coração, afirmou Hélio Angotti Neto, ilustre oftalmologista e professor brasileiro. Ele propõe um estilo de vida socrático (investigação pelo diálogo e conhecimento) e diz mais: “nesse período de ideólogos e manipuladores, que não façamos parte de uma multidão de interesseiros e imediatistas, prontos a vender a alma e a própria medicina em troca de interesses difusos”.
No caso dos atendimentos em unidades de pronto-socorro, deve-se buscar o correto acolhimento, com o conceito de “equipe de saúde”, profissionais solidários e capacitados para resolver problemas urgentes e emergentes, com o apoio de uma estrutura que não tenha outro objetivo que não seja a atenção que se espera receber de um pai, uma mãe ou um irmão: o de sentir-se um ser humano muito amado em seu mundo, numa situação fora do comum, com a dignidade merecida. Isso é medicina humanizada.


Veja o que disse Hipócrates, o “pai da medicina”: “A Medicina é a mais nobre de todas as artes, mas no presente está muito abaixo de outras, graças à ignorância daqueles que a praticam e àqueles que os julgam de forma leviana. A mim parece que seu erro deriva principalmente do fato de que nas cidades não há punição ligada à prática da Medicina, exceto a desgraça, e isso não fere aqueles que se tornaram acostumados a tal estado de coisas. Tais pessoas são como figurantes nas tragédias, pois assim como têm forma, se vestem e se parecem com atores, mas não são atores, assim também são muitos os médicos em título, porém poucos o são em realidade”.


HIPPOCRATES. Prognostic Regimen in Acute Diseases. The Sacred Disease. The Art. Breaths. Law. Decorum. Physician (Chap. I). Dentition. Volume II (tradutor: JONES, WHS). Cambridge: Loeb Classical Library, 1923.